Unir a Nação e romper com a dependência

Em agosto de 1982, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro realizava seu 3º Congresso. Na abertura, Claudio Campos oferecia seu informe aos delegados, conforme consta do capítulo 23 do Pensamento Nacional-desenvolvimentista. A peça inaugura o bloco conclusivo da obra, que trata da recuperação do nacional-desenvolvimentismo para a Revolução Brasileira.

Cláudio relembrava a decisão de uma década antes sobre a questão central do caminho brasileiro ao socialismo: recuperar a democracia, de modo que a expressão majoritária entre os brasileiros se fizesse valer na construção do futuro. A tarefa central para tal conquista, que se vislumbrava próxima, era a independência nacional.

Assim resumiu:

O regime atual não é democrático, não é a “dominação do povo”, justamente porque é, no fundamental, expressão política de interesses externos, isto é, trata-se de um Estado descomprometido com a Nação e, portanto, com o povo. A tarefa democrática central, é, pois, exatamente, a ruptura com esse Estado e a constituição de um Estado efetivamente nacional.

No plano econômico, eram exatamente as relações dependentes que impediam o desenvolvimento das forças produtivas no Brasil. Não se tratava, pois, de construir uma economia socialista, mas de romper com a dependência para desenvolver o capitalismo pátrio. A questão que se colocava era sob que direção de classe o avanço iria acontecer, da qual dependeria a velocidade do progresso.

O Secretário-geral do MR-8 procurou estabelecer a existência de uma situação revolucionária objetiva no Brasil de então, em que “os de cima” – a ditadura militar fascista e subserviente principalmente ao capital financeiro estrangeiro – já não mais tinham invariável o seu poder; a miséria crescia a olhos vistos; e o movimento de massas, a começar pelo Conclat e seus 1200 sindicatos reunidos, experimentava um salto de qualidade, também observado na greve do ABC.

O terreno mais favorável ao enfrentamento era o eleitoral, mas “uns poucos mas bem colocados fascistas” não pensavam assim: a tentativa terrorista no Riocentro e de anular a incorporação do PP ao PMDB, diante de um pacote eleitoral que coibia as coligações partidárias e a restauração democrática, foram mostras de que certos elementos de então se arriscavam em aventuras golpistas.

No plano tático, Claudio relata a crescente aglutinação de setores da burguesia nacional junto ao proletariado, em torno da questão democrática, e as possibilidades de a grande burguesia industrial e a maior parte dos altos mandos das Forças Armadas também romperem o “cordão umbilical do Imperialismo”.

Com o país já dotado de indústria de base e de interesse militar com razoável tecnologia agregada, o interesse objetivo tanto dos industriais como dos militares por um desenvolvimento soberano destacava-se como oportunidade de congregar toda a Nação, salvo um reduzido grupo de apodrecidos setores subservientes, na luta pela restauração da democracia em ambiente soberano.

Antes de se dedicar a questões internas de organização partidária, Cláudio Campos sintetizou:

Como vemos, o desenvolvimento da realidade objetiva, a gravidade da crise em que nos encontramos, tanto política, quanto econômica, que clama pela ruptura da nossa dependência, passa a tornar, objetivamente, de interesse dos mais diferentes setores sociais o fim da postura de submissão ao imperialismo.

E concluiu:

A principal manifestação da luta de classes no Brasil de hoje é exatamente aquela que se dá entre o capital financeiro internacional e o conjunto de classes que compõem ou podem vir a compor a Nação brasileira. E que, nas condições concretas do Brasil de hoje, são reduzidos os setores internos que têm interesse objetivo em se manter indefinidamente sob a hegemonia do imperialismo.

Em sua generosa vida, Claudio Campos foi um patriota e revolucionário como poucos, um ser humano ímpar. Foi Secretário-geral do MR-8 e fundador do jornal Hora do Povo em 1979. Sobre ele, reproduzimos um artigo de Carlos Lopes.

Os meses que se seguiram ao 3º Congresso mostraram a justeza das suas resoluções, com a vitória da oposição em quase todos as Unidades da Federação, a amplitude das Diretas Já, a eleição de Tancredo Neves em pleno colégio eleitoral da ditadura, que chegou a termo de forma pacífica no Brasil, e a promulgação. em 1988, da Constituição cidadã. Qualquer semelhança com a situação e as tarefas atuais não será mera coincidência.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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