Paulo Guedes, a entrega do patrimônio público e da receita arrecadada

Nos três primeiros anos do mandato presidencial

Cerca de um ano atrás, o Bonifácio trazia Os cálculos de Paulo Guedes, da Resenha Estratégica nº 17 do volume 18 (maio/2021).

Trata-se da avaliação de uma promessa de campanha, quantificada pelo Posto Ipiranga, de arrecadar R$ 1 trilhão com a alienação de ativos da União, ativiade pouco republicana popularmente chamada de queima de patrimônio estatal federal.

O fracasso da política econômica adotada pelo governo Bolsonaro era assim resumido na Resenha:

  • uma estagnação econômica a caminho do sétimo ano;
  • mais de 40 milhões de pessoas desempregadas, subempregadas e desalentadas;
  • mais de metade da população enfrentando alguma forma de insegurança alimentar (ironicamente, em meio à expectativa de um novo recorde na produção agropecuária);
  • quase um terço de jovens até 29 anos sem estudar ou trabalhar (os “nem-nem”);
  • indústria operando com cerca de 30% de capacidade ociosa e em acentuado processo de encolhimento da sua participação no Produto Interno Bruto (PIB);
  • um brutal desmantelamento do setor de pesquisas científicas e tecnológicas, devido aos implacáveis cortes orçamentários determinados pelos pró-rentistas do Ministério da Economia.

Como, há poucos dias, explicou o professor Fernando Nogueira da Costa em Pior Equipe Econômica da História do Brasil, o quadro prossegue dramaticamente adverso aos brasileiros que lutam para por comida na mesa de suas casas.

O quadro inicial, preparado pelo Poder 360 no ocaso de 2021, mostra o quanto o governo avançou sobre o erário. Imaginemos que, se empresas como os Correios e a Eletrobrás não forem vendidas, a receita privateira beire os R$ 300 bilhões. Em cálculo aproximado, feito apenas para aferir a ordem de grandeza da ocorrência, o valor permite quitar no quadriênio o sobrejuro da dívida pública oferecido acima da Selic. Com o sonhado trilhão, daria para cobrir com folga a diferença entre o custo do financiamento do estoque nacional de títulos e os custos financeiros básicos dos EUA.

Vejamos. Se cada ponto percentual da Selic equivale a R$ 32 bilhões adicionais aos rentistas e temos uma média superior a 5 deles a cada ano, 70% da arrecadação seria devolvida à banca internacional, provavelmente sob a escusa de enxugar o excesso de liquidez monetária causador de inflação, se o dinheiro fosse dirigido aos investimentos públicos e gastos sociais do Brasil.

Já os juros da dívida terão superado a Selic em algo como R$ 350 bilhões até o fim de 2022, já considerando a manutenção das taxas de hoje, superiores ao custo médio dos títulos emitidos pelo Brasil.

Difícil saber ao certo se essas contas são feitas pelo governo com ingênua boa intenção ou não. Mas o fato é que a cada vez que uma empresa é alienada, deixa de produzir dividendos para o Tesouro Nacional e o volátil dinheiro arrecado acaba por assegurar renda crescente ao bom negócio da dívida pública.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, conselheiro da Casa do Povo, EngD, CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

6 comentários em “Paulo Guedes, a entrega do patrimônio público e da receita arrecadada

  1. Recebido de um leitor:

    A discussão central aqui tem um nome: financeirização.

    Trata-se de um processo de acumulação capitalista que se dá não mais sobre o processo de produção de bens e serviços, mas sobre a especulação de ativos financeiros.

    Trata-se de etapa do sistema capitalista que ocorre no mundo. Alguns países procuraram manter o foco da acumulação sobre a produção. O caso da China é exemplar. Outros transferiram sua produção industrial para outros países. O caso dos EUA, com a transferência de boa parte da sua produção para o exterior, é um caso típico desse processo.

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