Iso Sendacz na Manhã RBA Litoral

Conversamos terça-feira na Manhã RBA Litoral, 4.1.2022, com Tânia Maria e Sandro Thadeu, sobre as perspectivas econômicas do Brasil para este ano do bicentenário da Independência. Mas não só. Falamos também do serviço público brasileiro e da Casa do Povo.

Confira abaixo o texto-base que guiou a nossa apresentação e, nas imagens, a íntegra do programa e o áudio da entrevista.

A mesma insensibilidade da presidência da República pelo sofrimento do povo brasileiro que se viu na questão das vacinas pôde ser sentida diante das enchentes que submergiram boa parte da Bahia – o presidente prosseguiu suas férias em outras águas e vetava a ajuda externa aos Estados, como obstruiu outrora o oxigênio de que Manaus era carente.

Independentemente da omissão do Estado, o povo brasileiro de pronto mobilizou-se em campanhas de solidariedade por todo o país.

No entanto, algumas propostas em petições públicas chamaram a atenção por desviar a atenção dos verdadeiros responsáveis pela tragédia não atendida: o governo brasileiro e os verdadeiros parasitas da coisa pública.

Por exemplo, uma delas requeria a transferência dos recursos do fundo eleitoral de R$ 5 bilhões para as cidades debaixo d’água. Pouco se disse, no caso, que a despesa da União com juros de uma dívida até hoje inauditada, que só faz crescer pelo seu próprio giro financeiro, supera a marca dos R$ 400 bilhões anuais.

Ou seja, o fundo democrático de debate público, que muitos podem considerar exagerado em valor, representa pouco mais de 1% dos juros de um ano.

Tudo isso remete aos estudos que fizemos sobre a era do capital improdutivo, do economista de origem polonesa Ladislau Dowbor, pós-graduado na terra onde meus pais também nasceram.

As relações de trocas mercantis se tornaram hegemônicas sob o capitalismo, quando este, no domínio primeiro da energia do vapor e, mais tarde, da eletricidade, rompeu as limitações da produção feudal, que se mostravam insuficientes ante o rápido crescimento populacional humano dos últimos séculos.

Se, de início, a acumulação capitalista se dava por meio de trocas internacionais desiguais entre as nações industrializadas e as detentoras de matérias primas, acompanhadas dos famosos empréstimos para comprar o que os próprios exportadores vendiam, já há um século passou a predominar a movimentação dos capitais acumulados, com a instalação de subsidiárias diretamente nos países dependentes.

A exportação de capitais, na busca da hegemonia global, não se deu sem tensões, que causaram grande e conhecida destruição de gente e de coisas.

Dos anos 70 em diante, as finanças passaram a predominar sobre as demais formas de capital nas relações internacionais, sempre apoiadas por forte máquina militar e domínio ideológico e prático das máquinas estatais nacionais. É o que Dowbor chama de capital improdutivo. Ao invés da utilidade dos produtos, retorno financeiro sobre o capital investido.

E como o Brasil se posiciona nessa história?

Éramos uma colônia portuguesa, matriz que também se posicionou subalternamente aos ingleses, quando da revolução industrial – trocava azeites finos por produtos industrializados, e pagava a diferença com o ouro do Brasil.

A independência política de 1822, prestes a completar 200 anos, marcou o rompimento com o intermediário luso para um relacionamento direto – e subalterno – com o Reino Unido. Somente um século depois o país reuniu as força políticas nacionais – a burguesia e o operariado nascentes à testa – para empreender, a partir da Revolução de 30, um projeto nacional-desenvolvimentista que iniciou pela substituição de importações e passou, em um segundo momento, à indústria de base e a energia. Isso do lado da produção. Do ponto de vista do trabalho, foi instituído o salário-mínimo, cinco vezes maior que o atual, e uma série de garantias trabalhistas que, se de um lado representaram justiça social, de outro fortaleceram o mercado de consumo interno, gerando mais pedidos à indústria e um ciclo virtuoso de crescimento econômico de meio século, encerrado com o advento do financismo naquela que foi chamada de a década perdida.

Três dos “muitos filhos na história” desta Ilha Encantada, expressão cunhada no hino da cidade de Santos, podem ser destacados nessa trajetória: Bonifácio Andrada, o Patriarca da Independência, no início do século 19, e Roberto Simonsen e Guilherme Guinle (este nascido no Rio de Janeiro, mas criado no Porto de Santos), respectivamente o patrono da indústria brasileira e o descobridor do primeiro óleo em Lobato, BA.

O que fazer?

Sob a ótica da economia:

  • Resgatar o nacional-desenvolvimentismo em um novo projeto nacional de desenvolvimento, para romper com a dependência e construir uma economia próspera, tecnologicamente avançada e socialmente generosa aos brasileiros; e
  • Como propõe Dowbor, empreender os esforços necessários a redirecionar os recursos esterilizados na ciranda meramente financeira para a esfera da produção e do consumo. Segundo ele, para a economia funcionar, é importante trazer os recursos públicos para próximo da população, como se faz em países tão distintos como a França e a China.

Do ponto de vista político, a crise demanda a troca completa do governo federal e uma ampla frente para vedar a drenagem da riqueza nacional e reconstruir o Brasil nos marcos da independência também econômica.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, conselheiro da Casa do Povo, EngD, CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

3 comentários em “Iso Sendacz na Manhã RBA Litoral

  1. Parabéns, meu caro Iso, pela análise, lúcida e profunda, e pela beleza do próprio texto, muito bem escrito. E mostra que você é estudado, que argumenta em cima de sólido conhecimento. Abração.

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