Roberto Simonsen: a indústria e o desenvolvimento do Brasil

Da terra de Bonifácio, o hino da cidade de Santos certamente a Roberto Cochrane Simonsen se refere quando entoa “tantos filhos na História”. Compõe o décimo capítulo do Pensamento Nacional-desenvolvimentista o artigo de Carlos Lopes na Hora do Povo, reputando-o como “um dos grandes homens do Brasil”, sendo que “a tacanhez era estranha à sua personalidade”.

Por encargo do Ministério do Trabalho , o então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) relatou, em agosto de 1944, parecer do Conselho Nacional de Politica Industrial e Comercial, unanimemente adotado (CNPIC), indicando os caminhos que o país deveria seguir ao fim do conflito mundial que se avizinhava.

Quando, dezesseis anos antes, fundava o Centro da Indústrias, Simonsen vaticinava:

A grande indústria, por toda parte do mundo em que se instala, traz como corolário o aumento dos salários, o barateamento relativo dos produtos, o enriquecimento social e o aumento da capacidade de consumo.

Entre as ideias surgidas no segundo quarto do século passado, destacavam-se a substituição de importações, proteção à indústria nascente, o nacionalismo econômico e “até mesmo a participação direta do governo nos setores de infraestrutura e indústrias básicas”, além do “aumento de crédito visando estimular os investimentos”, defendia o capitão das indústrias.

Seu objetivo, baseado na experiência internacional, em especial dos EUA, que caminhavam à hegemonia econômica global do pós-guerra, era quadruplicar a renda nacional.

No parecer prolatado destaca-se o conceito de “planificação econômica”, de modo a “proporcionar os meios adequados para satisfazer as necessidades essenciais de nossas populações e prover o país de uma estruturação econômica e social, forte e estável, fornecendo à nação os recursos indispensáveis a sua segurança e a sua colocação em lugar condigno na esfera internacional”. A ferramenta estatal vinha sendo adotada em países tão distintos como a URSS, os EUA, a Turquia, a Inglaterra e outros países em luta, “para organizar as suas produções, dentro de um programa de guerra total”.

Em contraposição ao pensamento de Simonsen e as “classes produtoras”, o acadêmico Eugênio Gudin, na Comissão de Planejamento Econômico, já então propunha a “redução do volume de obras e investimentos do governo federal ou por ele patrocinados”, acompanhada por aumento de juros, e o foco em “aumentar nossa produtividade agrícola, em vez de menosprezar a única atividade econômica em que demonstramos capacidade para produzir vantajosamente, isto é, capacidade para exportar”, desprezando a industrialização que diferenciava o centro da periferia global. Uma tropicalização da proposta de Milton Friedman aos EUA repetida até os presentes dias, que atende pelo nome de neoliberalismo.

Pouco depois da vitória aliada na Europa, Simonsen reafirmou os princípios que conduziriam o Brasil ainda por duas décadas. Os resultados do passado, como lembrou o ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, indicavam o rumo.

[nos EUA] A ênfase na industrialização, como é sabido, nasceu da iniciativa do Secretário da Fazenda, Alexander Hamilton, com seu Report on Manufactures, de 1791, à base do argumento da ‘indústria nascente’. No caso, o salto verificado no hiato de renda per capita entre os dois países: em 1820, a renda per capita dos EUA correspondia a uma relação de 1,9 para 1 em relação à brasileira; em 1914, 6~7 para 1.

Enquanto prevaleceram as ideias do industrial santista, na Era Vargas, a “renda nacional” brasileira cresceu em torno de 7% ao ano. No período seguinte, em que gradativamente os princípios de Gudin foram ganhando força, o ritmo decresceu em paralelo com a desindustrialização do país, até o crescimento vegetativo atual, intermeado por índices negativos, que mais não relega o país e seu povo à crescente miséria em meio à dependência dos humores externos.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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