Movimento contra carestia reúne-se no Dieese

Em 29.3.2023 lideranças paulistanas reuniram-se em São Paulo para tratar da carestia, que assola os lares brasileiros, levando a fome a muitos deles, e impacta a vida dos trabalhadores. Contribuímos apresentando considerações a respeito do aumento generalizado dos preços, fenômeno econômico conhecido como inflação.

À guisa de histórico, situamos a criação e função do dinheiro, conforme curso que ministramos à CTB: trata-se de uma abstração humana, criada para facilitar a intermediação dos excedentes de produção desde os primórdios da humanidade. Já sob o capitalismo, adquiriu a função de “equivalente universal das mercadorias”, pois poderia ser trocado por quaisquer delas e vice-e-versa; e modernamente a condição de ele próprio uma mercadoria, que se quer comprar por menos que o seu valor de face e vender mais caro.

Assim, toda mercadoria tem um preço em moeda comumente aceita no mercado, fixado pelo seu proprietário. E por que, se a técnica exige cada vez menos trabalho para produzir a mercadoria, esses preços ficam mais altos?

No Brasil, está relacionado com uma combinação de fraca produção nacional e importação de muitos dos produtos e componentes consumidos no país. Se é assim, os preços ficam sujeitos ao câmbio com a moeda dos fornecedores externos, seja pelo custo dos intermediários comerciantes, seja por paralelo entre o produto nacional e aquele que vem de fora. O outro efeito do câmbio elevado é que barateia as exportações, reduzindo a disponibilidade interna dos produtos.

O câmbio não é a única pressão sobre os preços. Com pequena massa salarial, cada vez mais comprometida com gastos que outrora eram serviços públicos, como saúde e educação, e um crediário caro, as famílias compram menos coisas. Fraca demanda, liquidação? Não, para compor as margens de lucro cada unidade é vendida por um preço maior.

As expectativas de inflação também contribuem para a subida dos preços: sempre que anunciadas pelas autoridades e especialistas do ramo, levam os comerciantes e prestadores de serviço a reajustar os preços um pouco além do anunciado. Resultado: na medição seguinte, o IBGE verifica que os preços subiram.

Os juros altos refletem nos preços das mercadorias de duas maneiras principais: por um lado, quem é financiado tem um custo mais caro, que quer repassar aos fregueses; por outro, quem dispõe de capital só vai produzir ou intermediar mercadorias se for para ganhar mais do que na renda fixa, garantida pelo Estado brasileiro.

A dívida pública, considerada um dos melhores negócios privados, onera os cofres públicos em ritmo crescente – já supera o trilhão de reais em um único governo – inibindo os investimentos públicos e a prestação de serviços, prejudicando a produção, a massa salarial e o consumo, fatores que empurram os preços para cima. E sempre que a inflação aparece, o remédio clássico do Banco Central é mais juros; muitos economistas alertam que esse “apagar o fogo com gasolina” tem pouco efeito quando a demanda é causa pequena do aumento dos preços.

Aspecto correlato ao tema é o sistema de tributação regressivo vigente no Brasil. Quem mais ganha, paga menos impostos! Se a renda financeira é meramente tributada em 15%, as exportações são isentas e a tabela do imposto de renda penaliza quem ganha menos. E o imposto sobre o consumo, embutido no preço das mercadorias, é igual para todos, onerando proporcionalmente mais que é mais pobre.

Em suma, a rota para que o salário permita às famílias consumir mais é produzir mais no país, aproximando a disponibilidade de mercadorias da necessidade de consumo popular, e prover mais serviços públicos para que sobre mais do salário para as compras do mês. Com tributação progressiva com a renda e de acordo com o interesse nacional.

Veja também a cobertura do evento pela Facesp.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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