Austeridade sob Lula 3.0

Paulo Kliass, no Vermelho

A tentativa de capturar o comando econômico de Lula está em pleno movimento

São muitas as reviravoltas que a evolução da luta política nos apresenta. A grande novidade para uns, ou surpresa para outros, tem sido a performance da candidatura de Lula nas pesquisas de opinião.

Enfim, à medida em que avança o calendário, os olhos da maioria dos formadores de opinião voltam-se para Lula. Faltam menos de dois meses para a realização do primeiro turno. E a formação de uma ampla aliança política em torno da candidatura do ex presidente promove um duplo efeito, ainda que contraditório. De um lado, a necessidade de uma vasta coligação é imperiosa para evitar o golpe e fortalecer as chances de superação desse governo, além de contribuir para que a questão seja resolvida ainda no dia 2 de Outubro. Por outro lado, no entanto, ela coloca problemas para a definição de um programa politicamente mais avançado para o terceiro mandato. A tentativa de capturar o comando econômico de Lula está em pleno movimento e as forças do capital procuram arrancar declarações e compromissos do candidato que tenham o significado de uma manutenção dos fundamentos da política econômica das últimas décadas[1].

Evitar os equívocos de 2003-2010.

Pois esse foi o quadro que permitiu que a política monetária praticada ao longo dos oito anos do governo Lula fosse marcada pelo conservadorismo e pelo arrocho. Com a condição de representante do financismo em seu DNA, Meirelles assegurou os ganhos extraordinários da banca. Entre 2003 e 2010, o governo brasileiro promoveu a transferência de R$ 2,2 trilhões do Tesouro Nacional a título de pagamento de juros da dívida pública[2]. A tabela abaixo nos expõe os dados anuais, com as informações corrigidas para valores de junho de 2022.

Esse movimento representou uma enorme transferência de renda do setor público em direção ao sistema financeiro. O gráfico abaixo apresenta a porcentagem dos valores das despesas financeiras da União, por meio de pagamento de juros da dívida pública, em termos de sua participação no PIB brasileiro a cada ano, ao longo dos dois mandatos de Lula. A independência oferecida a Meirelles no comando da política monetária permitiu que a média anual destes gastos fosse de 4,5% do Produto brasileiro.

Não à austeridade e ao superávit primário.

Caso vença as eleições e esteja despachando em seu gabinete a partir de primeiro de janeiro do ano que vem, Lula encontrará um país destruído por anos e anos de políticas de austeridade, além de todos os demais desastres levados a cabo por Bolsonaro e Guedes. A estratégia de enfrentamento das questões emergenciais, como a fome, a miséria e o desemprego, deve estar combinada com a implementação de um plano de reconstrução nacional. Isso significa restabelecer políticas públicas voltadas à maioria da população e promover programas de investimento em infraestrutura.

Ora, esse panorama não combina com a manutenção de políticas de geração de superávit primário ou de reafirmação de uma austeridade fiscal sem nenhum compromisso com a perspectiva do desenvolvimento. Lula deverá saber resistir às chantagens e ameaças do financismo, que já apresenta seu cardápio para manter a drenagem de recursos públicos a seu favor, por meio de uma SELIC elevada e de um compromisso com metas draconianas na política fiscal não-financeira. Nesse quesito, espera-se que Lula 3.0 venha a se revelar substancialmente diferente de suas versões anteriores. (+1206 palavras, Vermelho)

Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal no Brasil.

[1] Veja também Politica Monetária em 2023;

[2] Sobre as transferências subsequentes, veja As Veias Abertas do Estado Brasileiro.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, conselheiro da Casa do Povo, EngD, CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

3 comentários em “Austeridade sob Lula 3.0

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: