Minha casa, a Casa do Povo

Fundado para ser um monumento vivo aos homiziados na segunda guerra, a Casa do Povo (CdP) foi inaugurada em 1953 e seu Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib) em 1960. O espaço é obra, no bairro paulistano do Bom Retiro, do Instituto Cultural Israelita Brasileiro (Icib), sucessor do Clube Progresso. Os fundadores, imigrantes europeus estabelecidos no Brasil na década de 1930, imaginaram o prédio de cinco pavimentos como um centro de cultura e educação que, ao mesmo tempo, preservasse os valores progressistas judaicos e promovesse o desenvolvimento da cultura brasileira, integrando tradição e novas manifestações de todos os integrantes do nosso povo, nossa “raça cósmica”.

O princípio pétreo da carta original, que se encontra sob a pedra fundamental do prédio, é “fascismo nunca mais”. Nesse sentido, o trabalho político pela democracia no Brasil somou-se naturalmente às atividades da Casa, especialmente nos anos de chumbo, seja por iniciativa própria, seja albergando os movimentos sociais que se organizavam pela volta do Estado de Direito no país. Ao mesmo tempo em que esbirros da ditadura empastelavam a redação e a gráfica do jornal Nossa Voz, desaguavam no Taib as produções do CPC da Une clandestina e do Teatro de Arena, que havia ficado pequeno para o crescente público. Nos salões da CdP múltiplas reuniões eram realizadas em resistência ao fascismo instalado no governo brasileiro.

A confusão ideológica que assomou antigos dirigentes e o fim das atividades escolares nos anos setenta inibiu a formação de uma terceira geração nos princípios do judaísmo progressista, dentro dos elevados padrões educacionais que o Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem (GIBSA) proporcionava no Estado de São Paulo.

As pressões dos grupos judaicos sionistas também contribuíram para a dispersão de quadros, com tentativas de incorporar o patrimônio construído tijolo por tijolo a propósitos em geral distintos àqueles que o ICIB se destinava.

Mas em nenhum momento as seis velas pelos seis milhões de mortos deixaram de ser acesas nas comemorações anuais do Levante do Gueto de Varsóvia, em 19 de Abril. Nem o Coral deixou de cantar por um único ano o Hino dos Partisans – “nunca diga que esta é a sua última caminhada”.

Após o advento da Constituição cidadã, novos ares começaram a soprar na Casa do Povo. O trabalho dos filhos e netos dos fundadores, muitos dos quais foram alunos e professores do Scholem, como a escola era conhecida, procurou resgatar o espaço, a memória e a produção cultural humanista e progressista, que tanto contribuíram para o restabelecimento da democracia no Brasil, ora novamente ameaçada.

O idishe é a língua falada pelos imigrantes judeus do leste da Europa, que fundaram o Icib como sucessor do Clube Progresso. Dele vem a síntese do projeto de reconstrução:

Gedenk [memória]

Lugar de memória viva, no caso, da instituição, do bairro, das migrações e das resistências.

Farain [associação]

Plataforma em torno da qual se agregam iniciativas coletivas diversas, artísticas ou não.

Tsukunft [futuro]

Espaço que traz o futuro para o presente, desenvolvendo práticas experimentais.

Os cuidados materiais do prédio permitiram retomar a sua plena ocupação e atualizar a segurança do seu uso não só pelos ativistas da Casa, mas também por diversos grupos com iniciativas de cultura que têm nela o seu espaço de desenvolvimento e apresentação das obras que criam. Mas, para plena utilização do espaço físico ainda se faz necessária a reconstrução do Taib.

Da memória, foi reinaugurada a biblioteca com seu acervo de 4000 livros, documentos, fotografias, discos e outras peças, ainda em fase de organização. O Coral Tradição funciona regularmente preservando o cancioneiro tradicional dos ancestrais europeus. O jornal Nossa Voz voltou a circular, já há alguns anos, contando histórias antigas e novas. Mas os depoimentos e os registros das obras de antigos dirigentes ainda pendem de ser trazidos às mídias contemporâneas. Da mesma forma, muito da produção em idishe merece versão em português, para melhor contribuir à formação da cultura brasileira, no que couber.

São inúmeros e animadores desafios, que permitirão ao povo brasileiro frequentar a Casa, conhecer a sua premiada programação e contribuir para a preservação e ampliação da democracia no Brasil.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central, do Instituto Cultural Israelita Brasileiro e membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. De São Paulo, mora em Santos.

3 comentários em “Minha casa, a Casa do Povo

  1. Iso , minha casa também! !Lá a minha mãe ensinava no jardim de infância Dona Rosinha meu pae discutia política, eu e sua irmã Marina estudávamos. Estarei em visita em Janeiro 2020 espero poder visitar,saudades

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  2. Iso,temos o mesmo nome,coisa rara,meu tio Carlos Nusbaum foi extremamente atuante na “Casa do Povo”,tenho vagas lembranças das atividades da época da ditadura
    Iso Weinfeld

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