O Bom Retiro do século 20

Quando há cem anos meus avós e então jovens pais chegaram ao Bom Retiro, antigas terras do Barão de Três Rios, subiram a serra de trem e ali encontraram pronta a Estação e o Parque da Luz, como tantos gregos e italianos, coreanos e bolivianos o fizeram em distintas jornadas, por uma vida melhor no Brasil.

Não, não estive naquele setembro alvinegro com Alfredo Bataglia e seus companheiros operários na esquina de Zepa e Martins para dar vida ao Corinthians Paulista, o bicampeão mundial que se tornou meu time do coração e, como eu, é filho do Bom Retiro.

Também não fui de barco à escola, como meu pai fazia durante a cheia do Tietê na Rua dos Italianos; nem nunca tive o infortúnio de ver com meus olhos a exploração das jovens polacas traficadas por senhores nada aristocráticos, confinadas junto ao muro do trem que foram pelo governador Ademar de Barros, residente na vizinha Campos Elíseos.

Quando cheguei no dia seguinte ao 26 de Julho de 1960 muito já havia sido construído: bairro-sede da Força Pública de Miguel Costa, comandante da coluna invencível que leva seu nome e o de Luis Carlos Prestes e abriu passo para a industrialização do país; a Escola de Farmácia que hoje abriga as Oficinas Culturais Oswald de Andrade; a várzea esportiva à beira-rio, convertida em boa medida no Parque do Gato e o estádio de beisebol; o Museu de Arte Sacra e a Pinacoteca; e a Casa do Povo.

Foi num bairro assim que ia a pé para a escola, descia a Afonso Pena de rolemã, aventura-me pelas ruas e associações juvenis até o anoitecer, pedalava até a Escola Técnica ali no Pari e muito mais, até o ingresso na Escola de Engenharia de São Carlos.

Na volta, foi no Bom Retiro que casei, sob os olhos do Juiz de Paz Michel Nicolaides e fomos viver os primeiros anos no prédio da Dona Rosa, vizinho ao que morei desde que eu nasci. Ainda no final do século estabeleci-me no Centro Comercial do Bom Retiro, a Galeria que liga a José Paulino à Ribeiro de Lima onde outrora funcionaram a Rasentil e a Hagar Modas, de incontáveis noitadas de dezembro fazendo pacotes para presente, em um tempo em que o comércio estendia o horário no final do ano até às dez horas da noite.

Se a história do Brasil se escreve nas ruas de São Paulo, também foi e é escrita no Bom Retiro. Terra de governador de Estado e da primeira vereadora da nossa pauliceia, nas primeiras eleições municipais diretas da vida minha e de muito de nós, o candidato Fernando Henrique desfilava em carro aberto do “manda brasa” pela José Paulino, consagrando nas nossas ruas a volta da democracia.

Hoje ainda, em pleno século 21, minhas raízes falam alto, não só porque minha mãe e irmã vivem na mesma Afonso Pena do século 20, mas também porque fui indicado à direção da Casa do Povo, onde funcionavam o Ginásio Scholem Aleichem e o TAIB, do teatro idishe, do teatro de Arena e até dos incontáveis anos de Tistu, o Menino do Dedo Verde.

Hoje ainda, em pleno século 21, minhas raízes falam alto, não só porque minha mãe e irmã vivem na mesma Afonso Pena do século 20, mas também porque fui indicado à direção da Casa do Povo, onde funcionavam o Ginásio Scholem Aleichem e o TAIB, do teatro idishe, do teatro de Arena e até dos incontáveis anos de Tistu, o Menino do Dedo Verde. Uma forma de devolver ao bairro todo o carinho que de seus moradores recebi. Uma vizinhança que fez por duas vezes seu Conselheiro Municipal, junto à Prefeitura Regional da Sé.

Orgulho-me de o bairro que nasci e cresci ter sido escolhido como o mais legal do Brasil, em uma pesquisa internacional.

Muito mudou, menos uma coisa. Como dizia Juó Bananere:

“O Buritiro mora aqui”.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

3 comentários em “O Bom Retiro do século 20

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