A Escola Nacional João Amazonas trouxe os professores de economia Aloísio Barroso e Renildo Souza para o debate sobre a convergência ou antonomia entre a financeirização e o desenvolvimento. Foram duas horas de profunda e produtiva conversa.
Como introdução, Barroso explicou que o entendimento das formas mais avançadas das coisas é que permite entender seus antecedentes primitivos. Assim é com o capitalismo, outrora concorrencial e hoje monopolizado, principalmente pelas finanças. A financeirização é a forma exacerba das relações hegemônicas de hoje, superiores à velha usura, que ao mesmo tempo não cumpre o que promete e degenera em barbárie e negacionismo.
Aloísio mostra os números do lento ocaso neoliberal, que revelam a finitude das relações capitalistas de produção. Se no Bretton Woods pós-guerra houve um acordo que permitiu um avanço das forças produtivas em tempos de relativa paz, a fusão dos capitais bancário e produtivo em escala global, suportada por uma união militar, mostra pouca perspectiva de geração e distribuição de riqueza no futuro.




Em um mundo em que se verifica pelo menos três vezes mais ativos financeiros do que produção, Soares comentou: romper a carcaça das ideias do capitalismo não é processo automático, demanda conhecimento da realidade e luta. As contradições inerentes ao regime se agudizam, não se amainam. Não se distribui prosperidade, mas mais miséria e violência, reforçou o professor, com surtos de neofascismo.
Por exemplo: a dívida pública do Brasil está em 73% do PIB, em linha com os países em desenvolvimento e muito abaixo das principais potências econômicas. Mas apresenta-se o país como se estivesse à beira de um colapso. Gasta-se 6% do PIB com juros, para um suposto evitamento ou combate da inflação, enquanto a taxa de investimento anual de 18% fica quatro pontos percentuais abaixo da já cadente média internacional.
Segundo Renildo, a financeirização não se configura como uma anomalia do desenvolvimento capitalista, mas o próprio desejo último de acumular mais em cima de um capital fictício, que dispense a força de trabalho para a geração de riqueza, uma impossibilidade material por si só.
Muitos setores capitalistas no Brasil têm se manifestado contra a alta taxa de juros, mas as empresas individualmente têm interesse econômico próprio nessa forma de remuneração do seu capital.

Barroso lembrou que os efeitos da financeirização no Brasil levou seus quatro maiores bancos a figurarem entre os dez mais rentáveis do mundo em 2021, fenômeno que já se manifestava desde o primeiro governo Lula, fruto da desregulamentação dos mercados, ingresso de capital especulativo e desfavorecimento do país no comércio internacional.
Não obstante a necessidade de composição política para se avançar, ele lembrou que o ponto de partida para as negociações dos interesses envolvidos deve ser o Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento ofrecido pelo PCdoB. Não há que se ter ilusão com o embrenhamento entre o agro exportador de primários e a financeirização, não obstante as pequenas vitórias obtidas no embate sobre o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária em curso.
Renildo concluiu que a grande economia brasileira situa-se nos marcos do capitalismo dependente, com atrasos na produção e na tecnologia. Além disso, é preciso superar a hiperconcentração bancária e o parasitismo rentista sobre a dívida pública, além de diversificar a pauta de exportação para além das comódites.



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