Resultados conjunturais e transformações estruturais

Fernando Nogueira da Costa

Praça dos Três Poderes, Brasília, DF

Se bons resultados conjunturais oferecem melhores condições de vida à população brasileira, ela se importa em alterar a trajetória de longo prazo marcada pela desindustrialização, pela dependência tecnológica e pela elevada financeirização?

Essa é uma questão central da Economia Política. A resposta mais plausível é: a maioria da população tende a priorizar os resultados concretos de curto e médio prazo, enquanto a preocupação com a trajetória estrutural de longo prazo concentra-se nas elites políticas, econômicas, empresariais e intelectuais.

Há uma diferença entre o horizonte temporal dos cidadãos e o dos formuladores de políticas. Para a maioria das famílias, os critérios de avaliação do governo costumam ser bastante pragmáticos. Há emprego? O salário compra mais? Os alimentos estão acessíveis? É possível financiar uma casa ou um automóvel? O SUS funciona melhor? A violência diminuiu? Os filhos conseguem estudar?

Se essas respostas forem predominantemente positivas, é natural a avaliação do governo também melhorar – e o reeleger. Poucos eleitores decidem seu voto com base em indicadores como densidade industrial, intensidade tecnológica das exportações ou participação da manufatura no PIB.

Enquanto os motores da economia americana e europeia são impulsionados por tecnologia avançada, indústria de alto valor agregado e serviços financeiros, o Brasil baseia sua economia interna fortemente no setor terciário tradicional (comércio e serviços urbanos). Seu comércio externo possui grande dependência do agronegócio e da extração de commodities como petróleo e minério.

A diferença estrutural pode ser dividida nestes pilares principais. No Brasil, o setor de serviços responde por cerca de 70% do PIB, porém é concentrado em atividades de baixo valor e baixa produtividade. Na Europa e nos EUA, o setor de serviços é liderado por tecnologia, finanças globais, saúde e Pesquisa & Desenvolvimento, geradores de altos salários e forte inovação.

A indústria brasileira representa cerca de 23,4% do PIB, mas é fortemente voltada para o processamento primário (extrativa, eletricidade e gás, esgoto, construção), porque a indústria de transformação só representa 13,7% do valor adicionado. Em contraste, a indústria europeia e americana é focada em bens de capital, aeroespacial, biotecnologia e semicondutores.

No Brasil, o agronegócio atua como o principal motor do balanço comercial. Compõe, quando somada toda a sua cadeia (agroindústria e agrosserviços), cerca de 24% da economia nacional – somente a agropecuária pesa 7,1% do VA.

A produtividade por hora trabalhada no Brasil é equivalente a cerca de 20% a 25% da produtividade americana. Enquanto as economias desenvolvidas focam em inovação tecnológica para aumentar o rendimento, o crescimento brasileiro historicamente depende da expansão de terras cultivadas e exploradas (inclusive o pré-sal) e do aumento da força de trabalho em serviços urbanos primários.

Segundo dados recentes do IBGE, a dinâmica das Contas Nacionais provém de saltos pontuais na agropecuária aliados ao consumo das famílias. Essa configuração deixa o Brasil vulnerável a variações climáticas e à volatilidade dos preços internacionais das commodities.

Isso não significa essas questões estruturais serem irrelevantes. Implica em seus efeitos chegarem à população de forma indireta e com defasagem temporal.

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Uma política de desenvolvimento bem-sucedida tende a perseguir dois objetivos simultaneamente: um é entregar melhorias concretas de curto prazo, para legitimar democraticamente a ação governamental; outro é fortalecer capacidades produtivas, tecnológicas e institucionais de longo prazo, para essas melhorias serem sustentadas ao longo do tempo.

Essa combinação evita tanto o imediatismo — não criador de capacidades futuras — quanto o estruturalismo abstrato. Este promete benefícios distantes sem responder às necessidades presentes da população.

A abordagem da Nova Ciência Econômica reconhece, em sistemas econômicos complexos, o bem-estar corrente e a transformação estrutural não precisam ser objetivos antagônicos. Reforçam-se, mutuamente, quando as políticas públicas conseguem criar ciclos virtuosos entre demanda, investimento, inovação e produtividade.

É importante, imprescindível mesmo, manter o nariz fora da água, mas o fundamental é atravessar o rio neoliberal para alcançar a margem de um Brasil socioeconomicamente desenvolvido, com sustentabilidade ambiental e um povo feliz.

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Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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