
Em seu Economia e Complexidade, o professor Eleutério Prado explica o momento econômico e político que precede as eleições presidenciais desta ano. Ele demonstra que apesar dos razoáveis índices macroeconômicos, inclusive de crescimento da renda familiar, o serviço da dívida segue transferindo renda da base ao topo da pirârmide. Assim o economista introduz a questão ao leitor:
Na eleição de outubro, o Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva enfrentará pela terceira vez o movimento de extrema direita liderado por Jair Bolsonaro. Lula disputa a reeleição a seu quarto mandato presidencial amparado por um desempenho macroeconômico relativamente bem-sucedido. Após um longo período de crise e estagnação — entre 2015 e 2022, o crescimento médio anual do PIB foi de apenas 0,3% —, a economia brasileira cresceu cerca de 3% anuais nos três primeiros anos do atual governo, enquanto a taxa de desemprego caiu de 9,5% para algo em torno de 6%, na comparação entre as médias de 2022, último ano do governo anterior, e de 2025. Mas as pesquisas indicam que isso pode não ser suficiente para garantir uma reeleição tranquila. A maioria delas aponta uma disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.
A resiliência do bolsonarismo tem provocado uma reavaliação crítica da estratégia do lulismo, deslocando o debate para além dos indicadores macroeconômicos e voltando a atenção para os efeitos de longo prazo das políticas adotadas pelos governos do PT. Nesse contexto, o endividamento popular virou uma questão central. Embora a renda dos estratos mais pobres tenha aumentado, uma parcela crescente desses ganhos é imediatamente transferida a credores concentrados no topo da pirâmide social, reduzindo a margem para melhorias efetivas nas condições de vida. Esse diagnóstico reforça os alertas que economistas como Lena Lavinas vêm fazendo há anos sobre a financeirização em massa. Os benefícios inegáveis da inclusão financeira — que ampliou o acesso a bens básicos como geladeiras e máquinas de lavar —, passaram, aos olhos de grande parte da população, a ser ofuscados pelos custos da expropriação financeira.
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