Comércio exterior brasileiro: trocar com a China comódites por industrialização

O economista brasileiro Elias Jabbour está em Xangai, China, como assessor econômico do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos BRICS, presidido por Dilma Roussef. Sinólogo experiente, segue estudando a atualidade do país asiático e seu caminho próprio para o socialismo, bem como a utilidade da milenar sabedoria para a independência brasileira.

Em conversa sobre o seu artigo de 2023 “Brasil precisa de uma estratégia comercial clara e objetiva”, teceu considerações sobre o processo chinês de superação das limitações das relações capitalistas de produção e procurou mostrar o país como parceiro estratégico para o projeto de desenvolvimento brasileiro.

A crise financeira de 2008 trouxe impacto global de magnitude semelhante à crise de 1929, que gerou uma escalada de violência no planeta, cujo contraponto era então a URSS e o bloco socialista. O evento mais recente tem a China, secundada pela Rússia e seu capitalismo de Estado, como oponente da hegemonia estadunidense na guerra híbrida mundial, que combina força militar com enfrentamento psicológico e o uso do “dólar-bomba” para quebrar empresas e dominar mercados.

Nesse processo global o Brasil restou destituído de “vontade política própria”, cedendo crescentemente o seu território, riquezas e mesmo símbolos nacionais ao interesse do imperialismo ianque, secundado internamente por uma cepa reacionária que hostiliza o país desde dentro.

Enquanto China, Ìndia e Rússia, nos BRICS, querem avançar rapidamente, com fenômenos como a integração econômica chinesa e russa e o Acordo de Cooperação de Xangai, e a África clama por industrialização, as mudanças das políticas monetária e industrial no Brasil parecem carecer de principalidade.

Os chineses contam com 144 bancos de desenvolvimento de variado porte, capazes de emitir moeda e financiar milhares de projetos simultameamente, em um país hegemonizado pela empresa estatal, de propriedade social, e com um setor privado que é uma concessão governamental. O país segue sendo a fábrica do mundo, mas cada vez mais caminha para ser um produtor de valor de uso, integrado por trens de alta velocidade e com importantes subsídios no serviço público.

O gigante asiático conta com 2 milhões de engenheiros e economistas de projeto para assegurar, com o uso de banco de dados e inteligência artificial, a energia necessária para 12 milhões de novos empregos por ano e a acomodação urbana de dezenas milhões de ex-camponeses, com toda a infraestrutura que lhes permita viver confortavelmente.

O socialismo chinês é a razão e a ciência como bases da ação do Estado, enquanto o capitalismo deriva para o negacionismo e o neonazismo.

E o Brasil?

Jabbour vê na China o parceiro ideal para a reindustrialização do país, que sempre se desenvolveu seguindo tendências internacionais. Por exemplo, das montadoras de automóveis e a opção pelas rodovias surgiu a indústria metalo-mecânica de autopeças, nos tempos de Juscelino.

A receita: considerar soja, minério de ferro e petróleo ativos estratégicos, para negociar com os chineses a reorganização do território brasileiro, reconstruir o mercado interno integrando todo o Brasil e trazendo, com domínio tecnológico, também a indústria pesada para o país.

É nesse sentido, conclui o economista, que deve ser planejado o comércio exterior. E recuperada a vontade de se desenvolver soberanamente a Nação.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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