Reindustrialização do Brasil é a única saída para a crise

Com informações de Carlos Pereira, na Hora do Povo

Para o economista Nilson Araújo de Souza, da Fundação Maurício Grabois, de 1930 a 1980 o Brasil construiu uma das indústrias mais modernas do mundo. “O principal de nossas exportações chegou a ser da indústria de transformação”, lembrou. Em 1980, ela era quase 30% do PIB. Se incluirmos a Construção Civil e a extrativa, chegaremos a 44%. Hoje, a primeira está em 11% e no conjunto atinge 20%”.

Para o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, ex-diretor técnico do DIEESE e assessor do Fórum das centrais sindicais, “a indústria brasileira tinha o vigor que a China tem hoje”. Afirmou que “vivemos uma regressão industrial severa”. Segundo Clemente, “a recuperação não será simples”. Considera que temos uma oportunidade agora: “o processo eleitoral abre uma brecha para colocarmos o papel do Estado na condução de uma estratégia de desenvolvimento”.

Segundo Clemente, o Brasil não tem um projeto nacional de desenvolvimento porque “com ausência de um projeto, o que o neoliberalismo pretende é empurrar o país para trás, de volta para uma economia agrário-exportadora. Ao contrário, a industrialização do país exige um plano para o desenvolvimento, um Estado atuante e forte”.

Conforme avaliou Nilson, “Getúlio Vargas, nos primeiro e segundo governos (de 1930 a 1945 e depois de 1950 até seu martírio em 1954), consolidou a indústria de bens de consumo popular, estabeleceu as bases da indústria pesada — com a Petrobrás. siderúrgica de Volta Redonda, mineradora Vale do Rio Doce, projeto da Eletrobrás — e fortaleceu o mercado de consumo, com uma legislação trabalhista das mais avançadas do mundo, a CLT, a instituição de um salário-mínimo capaz de garantir o sustento de uma família de quatro pessoas e uma forte organização sindical”.

“No governo de JK, foi a vez da indústria de bens duráveis. Mas ele cometeu um erro: poderia ter continuado a implantação da indústria de duráveis sob controle nacional, cujas bases haviam sido assentes por Getúlio com a Fábrica Nacional de Motores, mas optou por montá-la sob controle estrangeiro, o que continuou após 1964. Nilson afirmou que no 2º PND, do governo Geisel, durante o período de ditadura militar, o estabelecimento de uma indústria moderna praticamente se completou, com a substituição de importações no setor de máquinas, equipamentos e insumos intermediários, sob controle nacional”, considerou.

“Isso ocorreu porque Getúlio inaugurou um período em que se somou a ação do Estado nacional (protegendo, financiando, realizar compras governamentais da indústria) com o fortalecimento do mercado interno, mediante o aumento do poder de compra do trabalhador, com a legislação trabalhista”, continuou.

Mas, para o economista, “de 1980 para cá houve uma devastação da indústria brasileira”[…] “A prioridade do Estado nacional deixou de estar voltado para a produção, para se concentrar no pagamento de juros, primeiro da dívida externa, depois dos empréstimos do FMI, nos governos Figueiredo e Sarney, com o intervalo do Plano Cruzado. Todo esforço: saldo comercial, corte nos salários, no investimento, privatizações. Espremendo a tudo e a todos. Tudo isso, para pagar juros. Assim foi a chamada década perdida”.

“O Estado deve voltar a alavancar o investimento, proteger nossas empresas contra a invasão estrangeira, garantir o financiamento e as compras governamentais às empresas nacionais”. Nilson sustentou ser necessário voltar a distinguir na Constituição a empresa nacional da empresa estrangeira que se instala no país. “FHC borrou essa diferença”. O economista propõe remontar o aparato das estatais, da Petrobras, da Eletrobras e da Vale do Rio Doce. Investir em ciência e tecnologia, universidades. Criar centros de pesquisa e produção, como a Embrapa”.

“Devemos criar complexos industriais da saúde, da defesa da tecnologia da informação, da energia, gás e petróleo, do agroindustrial, fornecimento de insumos e equipamentos, navios, aeronáutica”, disse Nilson.

Segundo Clemente, “a industrialização tem por objetivo o emprego de qualidade e o incremento do salário. O salário e a renda crescendo sustentarão a demanda. Os sindicatos devem ter uma ação propositiva numa estratégia de desenvolvimento. Têm a tarefa de colocar o debate público num espaço tripartite, discutir a inovação tecnológica e a médio prazo, a redução da jornada de trabalho”.

Clemente considera que com Estado forte haverá investimento privado, mercado de consumo robusto e uma economia que apresenta consumo do governo e inserção internacional.

O assessor do Fórum das centrais pensa que “tendo investimento as micro, pequenas e médias empresas vão crescer. São na maioria empresas nacionais, orientadas pelos vetores de desenvolvimento”. (+294 palavras, Hora do Povo)

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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