Quadrinhos – parte VIII

Por Horácio Sendacz*

“Ganhei o livro MAUS em junho do ano passado, criado pelo quadrinista estadunidense Art Spiegelman. Ele é um autor muito cheio de prêmios. O livro foi escrito entre 1973 e 1991 e publicado originalmente nos EUA em forma de quadrinhos, e já está na 37ª reedição brasileira.

O autor conta a história de seu complicado pai Vladek (1906/1982), um sobrevivente do Holocausto, sem dourar a pílula: no final da vida o pai seria um velho avarento, anticomunista, racista, doente e com medo de morar sozinho, mas que havia feito muitas coisas pragmáticas durante a guerra e mostrado competência para sobreviver. O autor intercala no texto as dificuldades pessoais de relacionamento dele com o pai, um homem difícil.

Periodicamente são lançados novos títulos sobre facetas do Holocausto. Sou descendente de judeus poloneses que migraram ainda crianças para o Brasil, pouco antes de 1930, para sair daquele leste europeu desagradável, para uma vida melhor no outro lado do Atlântico. Ainda bem que vieram. Casa um viajou com sua família (meu pai tinha 14 anos e minha mãe tinha menos que cinco) e se conheceram e constituíram família aqui, longe daquele inferno europeu. Perdi muitos parentes (que não conheci porque permaneceram na Europa) para os assassinos nazistas. Algumas pessoas hoje até podem perdoar essas maldades, mas ninguém deve esquecê-las.
O história do livro Maus abrangeu o período pós 1920 (quando o pai já estava adolescente) até o falecimento em 1982. O pai, após a morte da esposa Anja (já nos Estados Unidos do pós guerra), resolveu destruir a maioria dos documentos que o fizessem lembrar-se do passado. Os fatos citados no livro foram contados de memória, entremeados de reclamações pelo relacionamento quase hostil entre ele e a segunda esposa Mala.

O autor traçou um paralelo entre a situação atual (décadas de 1980 e 90), em que ele entrevista o pai em busca de material para o seu livro sobre o Holocausto e a narração das histórias que o pai contou.

Até o começo da guerra, o pai fora criado em uma família burguesa, a qual não acreditava que a situação dos judeus poloneses pudesse piorar com a invasão dos alemães, isto é, que os alemães conseguissem ser piores que os poloneses. Vladek seria (quando jovem) fisicamente forte, razoavelmente hábil em trabalhos manuais (consertar coisas) e aprendeu a falar também o alemão e noções de inglês (que não melhorou até o fim da vida, mesmo morando nos EUA) A versão brasileira do livro evidencia os erros de sintaxe que o pai cometia no inglês.

Os conhecimentos aprendidos por Vladek, bem como o fato de ter sido preso definitivamente pelos nazistas e enviado para os campos apenas em 1944, lhe permitiram manter, dentro do possível, suas forças e sobreviver às cruéis condições de fome e insalubridade dos campos de extermínio. Ele às vezes conseguia rações extras de comida, prestando serviços especiais aos alemães e aos “kapos” (trabalhou como sapateiro, funileiro, professor de inglês, etc.). Ele sobreviveu inclusive à “marcha da morte” já no final da guerra, mais um crime imperdoável dos nazistas, entre tantos.
Algumas pessoas o ajudaram (salvando sua vida), outras foram ajudadas por ele e muitas o traíram. Mesmo preso, ele pensava na esposa Anja, que se encontrava na ala feminina do campo de extermínio, Ele chegou a vê-la rapidamente, quando foi reparar um telhado. O amor sobreviveu à guerra e ele viajou mais de uma vez à Polônia até encontrá-la e voltar a viver com ela.”

Horácio Sendacz

*Horácio Sendacz é Administrador de Empresas aposentado, cronista e mora em Curitiba, PR.

Parte de sua obra pode ser conhecida em O universo visto por Horácio.

Fim da primeira temporada!

The end, by now! Hasta pronto!

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

2 comentários em “Quadrinhos – parte VIII

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