Personagens do cotidiano operário de Santos

Após situar o cenário santista em termos de bairro-nação, bonde-operário e locais de trabalho, Rodrigo Rodrigues Tavares historia as pessoas que protagonizaram a vida laboral na era Vargas, dedicando a segunda parte da sua tese de mestrado ao período até a eclosão da intentona comunista de 1935.

As referências mais conhecidas dos trabalhadores eram, como se bem sabe, Vargas e Prestes.

Foi o jornalista caiçara Rafael Correa de Oliveira quem primeiro estabeleceu contato com o co-líder da coluna Prestes, quando foi à Bolívia por escalação do seu tio Chateaubriand, dono dos Diários Associados. Seu sucesso na empreita, em que pôde munir Prestes do Manifesto Comunista e de seu conterrâneo Afonso Schmidt, o fez titular do Praça de Santos. Vem de Santos o Manisfesto pela Liga de Ação Revolucionária, que marca em 1930 o rompimento de Prestes com Vargas, de um lado, e mostra a crescente penetração do tenentista entre os trabalhadores caiçaras.

Era nas redações dos jornais de então, como A Nação, O Solidário e o próprio Praça de Santos que se discutiam os caminhos que levaram à Revolução de 30. Credita-se à Rafael a publicação, em Maio de 1930, do manifesto que Prestes expõe seu rompimento com Vargas.

De seu lado, João Freire de Oliveira entendia dever prevalecer uma aliança mais ampla, dos intelectuais liberais, classe média e proletariado, ideia que cresceu em Santos por a cidade não ser essencialmente operária.

Os tenentistas, na maioria advogados e defensores dos portuários, nucleavam-se em torno do “general-estivador” Miguel Costa, um dos comandantes da Coluna e com presença tanto no Porto como na Segurança Pública estadual. A relativa proteção à organização dos estivadores em oposição aos oligarcas do café conferia-lhe prestígio na “urbe sem proletários”.

A repressão oficial ficou ao encargo do delegado Bianco Pedroso, responsabilizado pelo assalto às sedes dos sindicatos dos Estivadores e dos operários da construção civil e a contenção, relativamente pacífica, das manifestações públicas em torno do porto.

A negritude santista integrava e liderava a Frente Negra Brasileira, inspirada nos ideais de Luis Gama mas, em 1932, subdividida entre a “identidade negra e paulista” de Guaraná Santana e a fidelidade ao governo federal de Isaltino Veiga dos Santos.

Do lado comunista, a clandestinidade do partido trazia poucos nomes a público. No entanto, atribui-se à célula santista a mobilização dos desempregados e a marcha da fome que, se não chegou a ocorrer na cidade como previsto, teve impacto na aproximação dos estivadores do pensamento do PCB.

Marcha da Fome, Rio, 1929

A intentona de 1935 não teve propriamente praça na cidade. Mas o portuário Manoel Tibúrcio, que trabalhava para a polícia, informava que os estivadores estavam fortemente armados, contavam com o apoio de Miguel Costa e teriam embarcado containeres destinados aos prestistas em Natal, onde a rebelião de fato eclodiu.

Um breve e incompleto resumo, que concluímos com uma reflexão do ensacador de café Herculano de Souza, comunista, sobre o 13 de Maio:

O governo tirou este feriado, dizendo que agora todos éramos livres e que isto era coisa que já tinha passado, nós devíamos pensar no futuro. Era pois boa ocasião de nós mostrarmos que hoje todos nós somos escravos sem distinção de raça, cor e nacionalidade.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, conselheiro da Casa do Povo, EngD, CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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