O bairro-nação e o bonde-operário de Santos

A pesquisa de mestrado de Rodrigo Rodrigues Tavares traz os cenários e personagens do cotidiano operário de Santos nos idos de 1930 a 1954.

Porto de entrada para o Brasil, em 1934 um a cada quatro habitantes da cidade era estrangeiro, predominantemente português. Uma presença que superava um terço catorze anos antes.

Para entender o epípeto de “Moscouzinha” brasileira da “cidade vermelha”, comecemos pelos cenários de então.

Os imigrantes que se estabeleceram na Ilha Encantada moravam próximos aos seus conterrâneos. Assim, os locais de moradia de cada nacionalidade ficaram conhecidos como bairros-nação. Os japoneses, por exemplo, pescavam e cultivavam nas chácaras da Ponta da Praia. Já os portugueses madeirenses, acostumados ao solo escarpado da ilha de origem, preferiram o Morro de São Bento. Enquanto os descendentes de escravos ocupavam o antigo Quilombo do Jabaquara, espanhóis e italianos tinham no Campo Grande o seu ponto de reunião.

Morro de São Bento

Tudo isso sem prejuízo à presença de estrangeiros em outros pontos da cidade.

O trabalho na cidade era classificado, para fins do estudo, segundo a concentração operária em um mesmo local. De um lado, os muitos padeiros e pedreiros dispersavam-se por diversos locais de comércio e construção; do outro, os metalúrgicos, tecelões e, aos milhares, cafeicultores e operários portuários, prestavam serviço sob um só ou poucos patrões.

No meio do caminho, entre a identidade nacional e operária, tinha um bonde.

O custo do aluguel de um quarto, ou mesmo uma cama, era impeditivo à massa dos santistas morar próximo ao local de trabalho. E encontrava no transporte oferecido pela estrangeira Companhia City a transição entre a sua identidade nacional, no local de moradia, e operária, no local de trabalho. Além de um tempo para refletir e conversar sobre o preço da passagem e as condições de trabalho e moradia que afetavam a maioria dos passageiros.

A “Moscouzinha” Brasileira é obra sucessora de Porto Vermelho, do mesmo autor, e prossegue tratando dos personagens da “era Vargas” e o seu sucedâneo.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

3 comentários em “O bairro-nação e o bonde-operário de Santos

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