O petróleo e a independência brasileira

Com ímpar conhecimento do subsolo brasileiro e uma vida dedicada à independência energética brasileira, Guilherme Estrella* foi o convidado à palestra magna da Associação Beneficente e Cultural dos Petroleiros do litoral paulista, sob mediação de José Anézio.

O geólogo enalteceu a riqueza do Brasil nos reinos mineral e vegetal, com muita terra, água sobre e sob o solo, floresta e sol, além de um dos genomas humanos mais ricos do mundo, uma “raça cósmica”, como aos brasileiros sempre se referia o saudoso Major Moacir.

A chave do desenvolvimento, lembrou Estrella, é a indústria e, para estabelece-la, além da competência que abunda nestas terras, faz-se necessário o suprimento de energia, que não pode ser só a disponível naturalmente.

A lacuna foi suprida pelo Estado nacional, a partir de Getúlio Vargas. Com a criação da Petrobrás e, mais adiante, da Eletrobrás, o Brasil construiu com recursos próprios um parque industrial movido a óleo, gás e eletricidade.

À parte de algumas pequenas cabeças e olhos moucos, a nossa maior empresa, uma das maiores do mundo no ramo, é motivo de orgulho para os brasileiros: pioneira global em águas profundas e ultraprofundas, foi a primeira a chegar ao pressal. Com investimentos em pesquisa, tecnologia e extração que concorrentes privados estrangeiros não quiseram fazer, foram bancados pelos brasileiros e coroados de sucesso.

Um resultado que vai muito além do fornecimento de energia: chega a todo o território nacional, gera empregos, fomenta empresas, distribui e atrai novos saberes e apoia a cultura e os esportes brasileiros.

Algo assim, pronto, produzindo lucros, é objeto de desejo de interesses não brasileiros. Se desde os tempos coloniais as riquezas do Brasil são cobiçadas, a potência emergente da segunda guerra não deixou por menos: ditou regras de desmonte do Estado em Washington, logo após a queda do muro de Berlim, e mesmo reativou a 4ª Frota, dormente desde 1950, quando jorrou o ouro negro pressalino.

Para o ex-diretor de exploração da Petrobras, o estranho não foi a ação estrangeira em busca da riqueza pátria, mas a leniência de certa elite colonizada para com ela. Não se trata de o Brasil agredir a quem quer que seja, mas de altivez no uso de seus recursos naturais, em favor do seu desenvolvimento econômico e social, à luz pacifista e laboriosa da Constituição cidadã de 1988.

As descobertas e a operação da Petrobrás não foram fruto de furos de sorte. As chances de sucesso no ramos petrolífero são de 10%, é preciso por vezes furar dez poços para que um jorre óleo. O que foi alcançado por gerações de brasileiros que, direta ou indiretamente contribuíram para a autossuficiência, é fruto de abundância de recursos e competência científica e tecnológica.

A intervenção direta da sociedade na economia é, além de expressão do interesse nacional, a boa forma de cuidar da própria vida, do progresso material e social. E isso se faz coletivamente por meio do Estado, concluiu Estrella.

*Guilherme Estrella é Geólogo, conselheiro do Clube de Engenharia e ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobrás.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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