Desigualdade da riqueza financeira no Brasil

Com Arthur Koblitz, presidente da AFBNDES

Somos assinantes do blogue Cidadania&Cultura. E, graças à iniciativa da Associação dos Funcionários do BNDES, tivemos a honra de ouvir ao vivo seu titular, também da Economia da Unicamp, Fernando Nogueira da Costa.

O acadêmico explicou que o desenvolvimento capitalista demanda, além de capital, crédito a quem detenha o primeiro. Enquanto este foi farto no Brasil, os índices do PIB corresponderam com razoáveis altas; na sua falta, a produção e, por consequência, o emprego e a renda, estagnaram ou regrediram.

Fernando foi didático ao exemplificar o que seja alavancagem financeira: se em dois anos o mercado imobiliário avança 25% e um sujeito dispõe de 100 mil para investir e compra um terreno, após um biênio terá um ganho de 25 mil. Mas se obtiver um empréstimo de 300 mil e optar por comprar uma casa por quatrocentos, ela valerá 500 mil e o ganho sobre o capital inicial será de 100% em 24 meses, se o juro for zero.

Passados os primeiros anos de estabilização do Plano Real, o crédito ganhou força nas políticas de Estado e por dez anos o Brasil cresceu. Ao trazer um banqueiro de convicções neoliberais para a Economia, o ciclo mudou de sentido e culminou com os últimos sete anos de depressão.

O movimento pretérito trouxe ganhos de emprego e renda, mas também de concentração econômica nas mãos daqueles que já dispunham de capital e, com a absorção do crédito, aproveitaram para comprar concorrentes e ampliar as posses que já dispunham. Alguns brasileiros, como Eike e Marcelo, outros da pequena casta global do “topo da cadeia alimentar” da riqueza.

No ano passado, como procurou ilustrar o Embaixador brasileiro na França, foi eivada de rojões comemorativos a “explosão” do mercado de capitais*.

Nogueira da Costa explicou: a queda do juros, tardiamente adotada pelo Banco Central em substituição ao anterior contraponto monetário ao crescimento econômico, levou muita gente a buscar outras alternativas financeiras.

Muitas empresas lançaram debêntures em 2019 para fazer caixa e antecipar empréstimos junto aos bancos, uma vez que a queda da taxa Selic tornou relativamente mais caros os contratos com juros pré-fixados (sem prejuízo dos movimentos concentradores de capital por aquisições de empresas em funcionamento).

A nominalmente baixa rentabilidade dos fundos de renda fixa, baseados em títulos públicos, levou muita gente a transferir seus recursos financeiros, às vezes sem muita transparência por parte dos gestores, para a renda variável. Dos habituais 600 mil investidores em bolsa, o número saltou para mais de 800 mil no ano passado. E o aparente sucesso do ganho fácil seguiu atraindo pequenas fortunas pessoais neste ano pandêmico – hoje quase dois milhões compraram posições em debêntures durante a alta do mercado, mais ainda depois de o resultado dos fundos de renda fixa ter sido negativo em março último.

Uma verdadeira bolha especulativa, avalia o professor.

E, como consideração final da sua exposição, ele acredita que logo mais o BC vai reduzir os juros significativamente, talvez de 3 para 2,25% ao ano. Com fundamentos econômicos ruins e a redução do papel emprestador dos bancos públicos – o BNDES, por exemplo, reduziu à quinta parte os desembolsos no ano passado, comparativamente com a média de 2004-14 – o resultado projetado por Nogueira da Costa ficará reduzido à proteção do spread bancário, ou seja, dos ganhos do sistema de intermediação financeira no Brasil e seus comissionados gestores.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular de Economia da Unicamp e autor de vários livros e artigos na cátedra. Dirigiu a área de crédito da Caixa Econômica Federal e representou o banco público na Febraban, além de exercer função no IBGE.

*Tratamos o tema em quatro artigos: introdução, mercado primário e secundário, situação atual e perspectivas no Brasil.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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