O senhor embaixador

Há cerca de um mês, o embaixador brasileiro na França escreveu ao Le Monde, jornal de grande circulação naquele país, queixando-se e procurando esclarecer as condições retratadas pelo jornal sobre a pandemia no Brasil.

Pareceu o diplomata imbuído de boas intenções mas, não obstante os elegantes cumprimentos ao editor, o que escreveu deixou a impressão de atitude defensora de governo, não do país que representa.

Sobre as ofensas ao Brasil que dizia o editorial conter, contestou Luiz Fernando Serra:

“Uma das maiores é decerto a tese da negação. O Presidente Bolsonaro nunca negou a existência da COVID-19. O que fez, desde o início da crise sanitária, foi tentar evitar que a histeria ou o pânico tomassem conta da população.”

A verve política do servidor público é revelada no parágrafo seguinte, quando toma partido do Chefe de um Poder em contraposição a outros igualmente eleitos pelos brasileiros:

“Outra extraordinária imprecisão desse editorial é acusar o Presidente Bolsonaro de ter ‘politizado’ a crise sanitária. O fato inegável é que a politização da pandemia foi comandada pelos governadores […] e que viram no confinamento estrito, imposto de forma às vezes brutal, a oportunidade de derrubar os excelentes indicadores econômicos que a administração Bolsonaro apresentou em 2019 […]”

Para defender uma tese rejeitada globalmente pelas autoridades de saúde – o confinamento estrito -, o sr. Embaixador garante aos leitores que “no Brasil, os estados que registraram mais mortes são os que com mais rigor aplicaram o confinamento”. Além de irresponsável, a afirmação é mentirosa: Florianópolis “fechou” o acesso à Ilha e contava em meados de maio com 14 mortes por milhão de habitantes, a quarte parte do índice nacional:

“De resto, em 14 de maio corrente, o Brasil, que tem a quinta maior população do mundo, tinha 61,86 óbitos por milhão de habitantes, doze vezes menos do que a Bélgica, a primeira dessa classificação.”

Se o necropolítico embaixador achava louvável a perda de dez mil vidas brasileiras, o que dizer das hoje mais de 43 mil, após um mês de quarentena meia-boca, em que a dificuldade de as pessoas ficarem em casa deveu-se em boa medida pelo atraso oficial nos repasses de recursos?

Para não nos estendermos na adulação pouco diplomática, consideremos apenas a apropriação indébita sobre pelo menos um dos “excelentes indicadores econômicos que a administração Bolsonaro apresentou em 2019”: Luiz Fernando assegura aos franceses que “graças às boas políticas que Bolsonaro pôs em prática, voltou a crescer”.

Após três anos de recessão, em 2017 e 2018 o PIB cresceu 1,1% em cada ano, e outro era o Presidente do Brasil. As novas políticas reduziram o crescimento a 0,8%, semelhante à taxa de crescimento populacional. Além de não recuperarem o passado, em nada acrescentaram para enfrentar a crise pandêmica não prevista.

A triste experiência subsequente à missiva do Sr. Embaixador nos lembra a velha máxima: a verdade é como o azeite, sempre vem à tona, por mais terraplanista que a entourage presidencial insista em ser.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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