Como preparação do 16º Congresso do PCdoB, a Fundação Maurício Grabois programou um ciclo de debates sobre os temas candentes da realidade global e brasileira. A primeira mesa, sob mediação de Rosanita Campos, versa sobre o ocaso do neoliberalismo como impulsionador do desenvolvimento humano.
A discussão oferece uma análise aprofundada das tensões atuais do capitalismo global: alta financeirização, erosão da produção industrial e o papel crescente, tanto no aspecto econômico quanto político, das plataformas digitais e das grandes corporações tecnológicas no Brasil e no mundo; traz ainda reflexão sobre desigualdades crescentes e os desafios à formulação de um novo paradigma de desenvolvimento soberano

Após as saudações dos presidentes Walter Sorrentino, da FMG, e Rovilson Brito, da seção estadual partidária anfitriã, o economista baiano Davidson Magalhães abriu no SIndicato dos Engenheiros do Esrado de São Paulo os debates propriamente ditos.
Após a consolidação da hegemonia do capital monopolista, sob a égide do neoliberalismo, no final do século 20, hoje o mundo já não é unipolar, com vanguarda socialista e crise no campo capitalista, fruto das contradições inerentes ao seu desenvolvimento concentrador de renda: quase 10% dos humanos vivem com menos de 3 dólares por dia, enquanto que outros quase 30% ganham não mais que oito. Se entre 2023 e 2024 a riqueza dos bilionário cresceu três vezes, 5 bilhões terminaram o ano mais pobres.
China e Índia, para onde se desloca o pólo dinâmico da economia global, tiraram mais de um bilhão de pessoas da pobreza; a resposta neofascista de Trump à crise, por outro lado, é a criação de mecanismos mais intensos de acumulação de capital, com guerra comercial, impostos, juros e outros mecanismo para derivativos que representam sete vezes a produção real mundial.
Contra os BRICS, concluiu Davidson, os EUA tentam desestabilizar o Brasil, aparentemente o elo mais frágil dos maiores países do bloco. O que remete a atenção a um projeto nacional de desenvolvimento.

A seu turno, o cientista Ergon Cugler, após desmitificar o “mito da garagem” no surgimento das big techs – foram constituídas com golpe, herança e canalhice -, procurou mostrar os cinco poderes do que qualificou como a “nova face do imperialismo”.
Essas empresas, que ocupam nove das dez posições entre as maiores do mundo; cinco delas faturam seis vezes o PIB do Brasil e seus donos figuram no topo da lista dos bilidonários globais (o poder econômico) revestem-se também de poderes políticos, sentando na primeira fila na posse de Trump e se imiscuindo mundo a fora nas estruturas de poder para barrar regulações que as limitem; cognitivo, manipulando mentes e comportamentos para aumentar o tempo das pessoas nas redes e venderem mais publicidades; burocrático, hospedando e processando dados de sistemas públicos como o SUS; e militar, provendo inteligência artificial para matar crianças inocentes.
Cugler ousou parafrasear Marx acusando as big techs de promover a “acumulação primitiva de dados”.

O jornalista Sérgio Cruz historiou o dólar estadunidense como moeda forte global a partir do final da segunda guerra mundial, de início lastreado em ouro. Indisponível o precioso metal nos anos 70, o padrão foi rompido e substituído pelo “argumento da força”.
O fim da URSS facilitou o “consenso” de Washington e a ofensiva neoliberal como instrumentos da reprodução do capital financeiro com titularidade altamente concentrada nos EUA, que acelerou ainda mais com o advento das novas tecnologias de comunicação e processamento de dados. Sobre o Brasil, os efeitos foram devastadores: desindustrialização, reprimarização e empobrecimento.
No entanto, decorridas poucas décadas, o que se vê hoje é a ascensão do campo anti-imperialista, liderado pela China, e o declínio do império americano e seus acólitos na Europa e no Japão. O desenvolvimento das forças produtivas chinesas, sob relações de produção socialistas, não se limita à corrida tecnológica, mas também aos seres humanos que trabalham.
É em cenários assim que o capital monopolista recorre ao fascismo – quando a supremacia socialista se faz evidente. Nos anos 20 do século passado diante da URSS e agora face à China, concluiu Cruz.

Coube ao professor Luiz Gonzaga Belluzzo a quarta palestra, em que deu ênfase ao pensamento de Karl Marx sobre o capital. O que hoje se vê já estava previsto na obra-prima do alemão, que observou o desenvolvimento capitalista em seu tempo.
Ele explicou que a financeirização não é uma anomalia do sistema, mas um elemento natural da relação capitalista de produção. A própria centralização e concentração do capital prevista por Marx pode ser hoje vista no caso das big techs, em que o general intelect – a tecnologia – se faz fortemente presente.
A especulação é elemento constitutivo do capitalismo, concluiu o doutor em economia da Unicamp. Mesmo quando se instala uma nova fábrica, a incerteza do retorno se faz presente. E a forma mais abstrata do capital é hoje o instrumento derivativo, várias vezes superior ao capital real, no qual o Brasil tem o terceiro mercado global, logo após os EUA e a Inglaterra.
O ciclo completo de debates envolve:

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