O “Ser Nacional” e a industrialização de Álvaro Vieira Pinto

Segundo César Benjamin, “Catedrático da Faculdade de Filosofia da então Universidade do Brasil” e foi um dos “fundadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), cujo Departamento de Filosofia passou a chefiar“. “Nação, povo, trabalho, cultura, ciência, técnica, dependência, desenvolvimento, construção de identidades foram temas que permearam a fecunda reflexão de Vieira Pinto“, completou o cientista político

Seu verbete na Wikipédia destaca “sua posição materialista e dialética a respeito da realidade nacional subdesenvolvida e sua atividade político-intelectual em defesa do desenvolvimento autônomo do Brasil durante o século XX”, bem como que “elaborou sua filosofia em torno do conceito de ‘trabalho’, entendido pelo autor como aspecto essencial do ser humano e também o próprio ser humano em atividade de trabalho”.

O Pensamento Nacional-desenvolvimentista traz duas condensações de obras e palestras, relativas aos temas que intitulam este registro do mestre brasileiro.

Considerando o desenvolvimento nacional um processo, Vieira Pinto destaca a premissa da ideologia para que o movimento aconteça e se dirija para o fim proposto. Tal conjunto de ideias precisa ser encampado pelas massas populares, cuja realidade concreta se quer transformar e avançar a um estado de desenvolvimento, entendido como o bem-estar e a segurança do provimento dos meios de vida.

Assim, prevê o filósofo, a consciência de massas pode ser alcançada pela combinação de ampla e clara propaganda da ideologia do desenvolvimento com a sua associação à solução de problemas que as pessoas se defrontam no seu dia a dia.

E o que é ideologia? O isebiano explica de plano no texto que compõe o capítulo 4 de o Pensamento Nacional-desenvolvimentista, obra organizadora do resgate de ideias para um Brasil independente, desenvolvido e generoso para com o seu povo:

O homem que possui uma ideia é ao mesmo tempo um homem possuído por essa ideia. No momento em que se delineia claramente em seu espírito a representação de certo fato ou situação, com a consciência dos determinantes dela e a perspectiva das consequências, passa ele necessariamente a agir em função de tal representação. Desse modo, a ideia deixa de ser tida como dado abstrato, para ser considerada como realidade eminentemente social.

A intensiva industrialização é o centro da ideologia de desenvolvimento. Álvaro detalha: “como tal deve entender-se não apenas o emprego da máquina na produção de artefatos, mas igualmente na produção agrícola”. Simples estender o raciocínio para o setor de serviços e as atividades diárias das pessoas, até ao ponto da “máquina de vestir” da família Jetson, e além.

E por que, em passagem elucidativa de “Realidade e Consciência Nacional”, condensada no capítulo 3 da obra citada, sob o título “A defesa da indústria nacional autêntica”, pensa Vieira Pinto ser imprescindível a uma sociedade que se quer desenvolvida “proceder ela mesma às operações transformadoras da matéria-prima que possui, até obter o objeto acabado”?

Fábrica da Gurgel Motores

Apenas quando se tem o “completo controle do processo econômico” é possível usar a industrialização não só como índice de desenvolvimento, mas em proveito próprio e imediato dos benefícios que lhe são inerentes. Do contrário, dizia Álvaro já em 1960, outra nação pode espoliar a brasileira, sorvendo dos lucros obtidos com o trabalho industrial barato das nações dependentes.

Como ele explica no texto:

De fato, ao se instalarem aqui as fábricas alheias, exportamos a mão de obra nacional sem fazê-la sair do nosso território, mas fazendo sair, isso sim, os lucros que advêm do trabalho dela.

Como muitos intelectuais nacionalistas brasileiros, Álvaro Vieira Pinto foi perseguido e exilado, tendo completado sua vida no Rio de Janeiro em 1987. Suas ideias, no entanto, permanecem colaborando para o alcance do desenvolvimento econômico e social das nações periféricas com a brasileira.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

2 comentários em “O “Ser Nacional” e a industrialização de Álvaro Vieira Pinto

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