Imprimir dinheiro para quê?

Após ouvirmos Nilson Araujo de Souza e Luiz Gonzada Belluzo sobre expansão monetária, participamos da sala virtual da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil nesta terça-feira.

Apresentaram suas consideração os economistas Antônio Côrrea de Lacerda e Rogério Studart.

Rogério indicou que a economia internacional já vinha apontando queda e a pandemia só fez acelerar o processo recessivo. A aposta brasileira em crescer a economia com base na ampliação do comércio exterior e atração de investimentos externos, na qual a flexibilização trabalhista é um dos ingredientes, sofreu sério prejuízo com a crise conjugada. Ainda que a China mantenha seus pedidos de energia e commodities, o movimento que se vê é a da saída de capitais, que aguardarão uma redução substancial do preço dos ativos nacionais para fazer suas aquisições no país.

A recuperação internacional não se dará de forma rápida, de modo que ao Brasil restará o incremento dos gastos públicos como ação pela retomada econômica. A demora no combate pandêmico também criará dificuldades maiores no futuro breve.

À sua vez, o presidente do Confecon ressaltou o ineditismo da situação atual: se crises sanitárias, como a gripe espanhola, e econômicas, como em 1929 e 2008, já são velhas conhecidas, a combinação de ambas é uma experiência inédita. No Brasil, agravada pela crise política, demonstrada pela descoordenação dos Poderes e ausência de quadros preocupados em enfrentá-las com seriedade no governo federal. Uma crise tríplice.

A desigualdade social em que dezenas de milhões sequer têm casa com saneamento básico para ficar, a desindustrialização que torna o país dependente até de insumos e equipamentos como máscaras, luvas e respiradores, a insuficiência do serviço público de saúde e a lenta ajuda às pessoas só agravam o quadro recessivo e mortal atual.

Ambos entendem que, a exemplo do universo dos países do qual o Brasil parece se fazer exceção, o ambiente deflacionário indica a expansão monetária como melhor forma de sustentar os gastos públicos nesta quadra da história. Cabe ao Estado um conjunto de obrigações fixadas na Constituição Federal e não lhe é permitido -nem esperado pela sociedade – ficar inerte.

Studart lembrou que o endividamento público é menos desejável: a inevitável queda do PIB faria saltar mais ainda aos olhos a relação daquele com este, abrindo brecha a uma liquidação de ativos públicos a preços de fim de feira.

Ambos concordaram que os investimentos precisam se concentrar na área social e em infraestrutura, com os cuidados ambientais próprio, tendo o Estado como protagonista. Lacerda ensinou que dois efeitos surgem daí: multiplicador, porque cada real injetado gera vários outros e depois volta ao Estado em forma de imposto; e demonstrativo, induzindo o particular a fazer o mesmo.

Studart concluiu que um país com 220 milhões de consumidores e o bioma e a base industrial do Brasil não é um país pobre, mas um país cheio de pobres.

*Antônio Côrrea de Lacerda é Presidente do Conselho Federal de Economia e diretor do curso de Administração e Economia da PUC/SP;

**Rogério Studart é doutor pela Universidade de Londres e foi economista nas Nações Unidas e no Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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