Brasil, 40 anos: a sociedade fraturada

A Fundação Maurício Grabois organizou um seminário em quatro episódios sobre a tese de doutoramento na Economia da Unicamp de Marília Tunes, intitulada Brasil: um país sem destino? , com o objetivo de subsidiar a atualização do programa partidário do PCdoB.

Os dez capítulos da obra agrupam-se em três partes, tratando sobre a regressão brasileira no campo da economia, da sociedade e da cultura e política, cada qual objeto de apresentação e debate em uma sessão. O último painel versa sobre a sociedade fraturada no Brasil.

Ana Prestes, responsável pelas relações internacionais do PCdoB, foi a mediadora da conclusão do Seminário. Ela explicou que a autora da tese, convidada de honra da sessão, dedicou sua vida acadêmica à pesquisa de mais de 40 anos de aspectos econômicos, culturais, políticos e sociais para fazer um Retrato do Brasil.

A professora-doutora Marília Tunes explicou que a interrogação do título de sua tese vem do antigo dito que o Brasil é um país do futuro mas, além disso, é um país com futuro. Em um século, houve avanço de 1930 a 80, e regressão de lá para cá, o foco do estudo – um período em que a participação da indústria no PIB caiu de 36% para 11%. Foi o ocaso do nacional-desenvolvimentismo, que contou também com o atraso tecnológico nacional e o desmonte do setor estatal, com crescente domínio estrangeiro na economia. A indústria remanescente envolve bens de consumo mais ou menos duráveis.

Destaca-se nos dias correntes o domínio do setor financeiro, com quatro bancos detendo 78% dos ativos. O rentismo carreia as empresas para fazer caixa e aplicarem nesse mercado. E fundos de investimento, mormente forâneos, vão se adonando do setor de serviços. Mesmo no agronegócio, fiscalmente privilegiado, insumos estratégicos são importados. Mesmo o comércio varejista descolou-se da produção nacional, com o advento dos aplicativos de vendas e serviços. O Brasil vive uma estagnação secular, sob a égide do financismo.

O Brasil é um país segregado, concluiu Tunes, em que a vida dos pobres até melhorou, mas o topo da pirâmide, que não está nas pesquisas, subiu mais ainda. Com o mercado de trabalho desestruturado, o cenário é de desesperança: os mais pobres dependem dos mais ricos, que pagam menos impostos, ou a eles prestam serviços. Retomar um projeto nacional-desenvolvimentista e dialogar diretamente com o povo, a despeito da dobradinha finanças-mídia, com um discurso social limpo de vieses.

O coordenador da Fundação Maurício Grabois Aloísio Barroso procurou comentar sobre o significado da revolução social brasileira. Desenvolvimento é a palavra-chave para enfrentar a dominância financeira e dos monopólios globais – apenas um fundo estadunidense detém recursos equilaventes a uma vez e meia o PIB do Brasil e o MCTI tem poucos recursos para prover a nova indústria.

Tudo isso é reproduzido em um padrão concentrador de renda: o jato mais rápido e vendido no mundo, Fenon 300, custa R$ 55 milhões a unidade e, dos 900 compradores globais, 70 são brasileiros. O país precisa de reformas estruturais, concluiu.

Barroso ilustrou a noite com uma lista de autores marxistas que tratam do desenvolvimento:

  • Paul Baran; “A economia política do desenvolvimento”
  • Charles Bettelheim; “A problemática do subdesenvolvimento”
  • Maurice Dobb; “Capitalismo, crescimento econômico e subdesenvolvimento”
  • Anibal Pinto; “A concentração do progresso técnico e de seus frutos no desenvolvimento latino-americano”
  • Luiz Pereira; “Subdesenvolvimento e desenvolvimento”
  • Florestan Fernandes; “Sociedade de classes e subdesenvolvimento”
  • Francisco de Oliveira; “A economia brasileira: crítica a razão dualista”
  • Nelson W. Sodré e Caio Prado Jr.

Ao presidente da Fundação Maurício Grabois, Walter Sorrentino, coube a fala final do Seminário, que se declarou satisfeito com as contribuições para a atualização do programa socialista do PCdoB. O Brasil forjou sua nacionalidade, uma grande nação, com uma cultura que amalgama o povo brasileiro.

Como país semiperiférico na divisão internacional do trabalho, é vítima de mal estar social profundo, consequência de 40 anos de hegemonia neoliberal. Mesmo com 18 anos de governos progressistas, o sopro civilizatório foi insuficiente para virar o jogo.

Um novo projeto nacional de desenvolvimento soberano, com ampla participação popular e da burguesia outrora parceira do proletariado na construção do Brasil é o caminho para superar o subdesenvolvimento e o desenvolvimento médio, impossível de ser alcançado diante do financismo imperante.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

4 comentários em “Brasil, 40 anos: a sociedade fraturada

Deixe um comentário