A Fundação Maurício Grabois organizou um seminário em quatro episódios sobre a tese de doutoramento na Economia da Unicamp de Marília Tunes, intitulada Brasil: um país sem destino? , com o objetivo de subsidiar a atualização do programa partidário do PCdoB.
Os dez capítulos da obra agrupam-se em três partes, tratando sobre a regressão brasileira no campo da economia, da sociedade e da cultura e política, cada qual objeto de apresentação e debate em uma sessão. O último painel versa sobre a sociedade fraturada no Brasil.
O mediador Iago Montalvão situou o debate da primeira noite: após um período de avanço com Estado forte, realizador e investidor, veio a crise com endividamento durante a ditadura, acompanhada de estagnação econômica e seguida de desindustrialização e retrocesso, objetos do Seminário.
Na abertura, o presidente fundacional Walter Sorrentino reafirmou a importância de um projeto nacional para o Brasil, sustentado pela mobilização popular; novos aportes, considerando a herança nacional-desenvolvimentista, após 40 anos de recuo.
O Doutor em Economia Diogo Santos lembrou que o Estado cumpriu um papel junto à atividade primária, envolvendo o fornecimento de suporte técnico e crédito subsidiado. Mas os beneficiários foram os grandes proprietários, com elevado nível de controle estrangeiro, não a massa rural de pequenos agricultores.
Como resultado, incrementado pela especulação financeira que se sucedeu, o Brasil não controla os insumos, o maquinário e a comercialização, apenas o plantio, da “porteira para dentro”. No geral, a ditadura e o período neoliberal posterior ampliaram a presença estrangeira na economia e privatizaram o sistema financeiro, com resultados pífios ante a China, Coreia e Japão.
O economista do BNDES entende que é preciso atrair a burguesia nacional para o projeto de desenvolvimento nacional, oferecendo um sistema de crédito atrativo ao desenvolvimento industrial, conectando o agronegócio aos interesses gerais da Nação e explorando as contradições do capital comercial com o capital externo e a dependência tecnológica. São tarefas transformadoras profundas, concluiu.
A historiadora Flávia Calé focou sua apresentação na desindustrialização verificada a partir dos anos 1980. A regressão não se resumiu à produção, mas igualmente impactou o formato do Estado e a distribuição de renda, com crescente participação do capital privado e mormente estrangeiro. O entendimento da coisa pública se viu restrito pela indústria editorial que se criou e pelos sistemas empresariais de comunicação e defesa jurídica.
Na educação, ocorreu uma massificação do pensamento. A saúde pública foi prefudicada pela abertura de mercado sobre o direito social público. E até a Defesa Nacional diminuiu com as restrições a investimentos industriais. No setor financeiro, culminaram até oportunidades de lavagem de dinheiros.
Para ela, a reindustrialização é a chave para a retomada da economia brasileira, sendo o novo projeto nacional de desenvolvimento tarefa primaz da classe trabalhadora do país.
O redator da Hora do Povo, Sérgio Cruz, comentou que o imperialismo quer se apoderar do Estado brasileiro, construído pelos trabalhadores e buguesia nacional a partir da Revolução de 1930. 50 anos mais tarde a composição de poder ganhou hegemonia dos interesses forâneos, com papel secundário para o empresariado nacional e arrocho salarial sobre quem trabalha. O Consenso de Washington promoveu o desmonte da coisa pública, com redução progressiva do planejamento econômico e das estatais, acompanhada do decaimento da participação da indústria no PIB. A aliança entre trabalhadores e burguesia produtiva precisa ser reconstruída, vaticinou.
Por fim, o professor Marcelo Fernandes observou que a tese subestima os ganhos sociais da Constituição de 1988. No período recente observa-se uma desaceleração da economia, com política fiscal contracionista, especialmente a partir de 2015. Sendo o “Estado mais fundamental do que nunca”, o economista propugnou a necessidade de um novo projeto nacional de desenvolvimento.



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