A Fundação Maurício Grabois organizou um seminário em quatro episódios sobre a tese de doutoramento na Economia da Unicamp de Marília Tunes, intitulada Brasil: um país sem destino? , com o objetivo de subsidiar a atualização do programa partidário do PCdoB.
Os dez capítulos da obra agrupam-se em três partes, tratando sobre a regressão brasileira no campo da economia, da sociedade e da cultura e política, cada qual objeto de apresentação e debate em uma sessão. O último painel versa sobre a sociedade fraturada no Brasil.

A mediadora Carolina Maria Ruy contou com dois apresentadores para os capítulos 4 – Os pobre no Brasil contemporâneo – e 5, versando sobre os ricos na atualidade.
A cientista política Daniele Costa explicou que a pobreza não se resume à renda insuficiente, mas abrange a privação permanente de uma vida digna. Se o IBGE apresenta uma linha que comprime um quarto da população brasileira, quando se considera os direitos sociais, culturais e políticos, o percentual cresce bastante.
O passado escravocrata ainda penaliza as pessoas negras, maioria entre os pobres, desprovidos tanto de poder econômico como político. Os mais pobres tabalham forma ou informalmente no comércio, na indústria de transformação, na construção civil e em serviços domésticos.
A seu turno, Theóphilo Rodrigues animou-se a comentar a tese sociológico-econômica abrangente, como não vista desde os anos 1970. A fratura social entre ricos e pobres abrange aspectos espaciais, materiais e simbólicos.
Lembrando que o topo da pirâmide social no Brasil está fortemente associada à financeirização, não à produção de bens, a elite é composta por industriais, banqueiros e líderes religiosos, à qual serve o restante da população. O setor conta com saúde e educação privada, com tecnologia de ponta, mas não gera dinamismo produtivo.
Com vista a avançar a modernização conservadora no país, concluiu o apresentador, é preciso identificar na burguesia setores interessados no projeto nacional de desenvolvimento. Afinal, conhece-los é chave para transformar as relações de poder no Brasil.
O professor de sociologia Paulo Gracino entende que a modernização em curso é excludente. Mesmo com a inclusão de mais pessoas no mercado de consumo, os governo de Lula e Dilma ainda revestem-se de conteúdo neoliberal. O crescente papel das igrejas evangélicas como organização social tem deixado as pessoas mais conservadores e é preciso dialogar revolucionariamente com esse público hostil.
Para Juliana Palmeira a mídia é aliada do capital financeiro, que exclui a maioria da população da riqueza. As redes sociais suscitam desejos nos mais pobres, mas trazem de fato frustração de não viver bem. Mais do que mudar o modo de vida, afirma ela, é preciso superar o modo de dominar, as representações da elite no poder.
O ex-deputado Nivaldo Santana historiou a era de ouro capitalista brasileira que sucedeu à República velha. Na era Vargas o Brasil se industrializou, tornou-se uma das maiores economias do mundo mas, a partir de 1980 perdeu potência e concentrou renda no mercado financeiro, arrochando salários de quem trabalha. O Secretário Sindical do PCdoB apontou a crise sistêmica do capitalismo como a “parteira de uma nova era”.
Concluindo os comentários da noite, Jorge Venâncio observou que apenas o desfalque do Master representou mais de cem vezes o patrimônio de uma família rica no Brasil. Como ensina o pensamento neoliberal, os juros elevados tornam mais interessantes as aplicações financeiras do que o investimento em plantas produtivas, além de drenar os cofres públicos e impedir uma gama de imprescindíveis iniciativas estatais.
Lembrando que a construção socialista da China contempla doses de concorrência capitalista, o médico indicou como tarefa centrar enfrentar a dominância financeira e a monopolização.


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