
Bernardino Brito
É comum ouvirmos que quem faz o mundo girar é o setor privado, com suas empresas inovadoras e empreendedores cheios de ideias e dinamismo.
Mas, a economista Mariana Mazzucato mostra que essa história tem outro lado.
No livro O Estado Empreendedor, ela explica que o Estado teve um papel fundamental em muitas das grandes invenções das últimas décadas.
Ao invés de ser apenas um órgão lento e cheio de burocracia como rotulam, o Estado apareceu como um agente ousado, que assume riscos e aposta em ideias que o setor privado geralmente evita.
Foi com dinheiro público que surgiram tecnologias que hoje fazem parte da nossa rotina, como a internet, o GPS, as telas sensíveis ao toque e até o assistente de voz Siri.
Enquanto as empresas privadas costumam apostar em melhorias pequenas e seguras, o Estado arrisca em pesquisas de longo prazo, abrindo espaço para inovações que mudam o mundo.
Mazzucato também questiona a fama do capital de risco, aquele tipo de investimento que costuma ser visto como o motor da inovação.
Segundo ela, esses investidores geralmente só aparecem depois que o Estado já fez o trabalho mais difícil, investindo nas fases iniciais e diminuindo os riscos. Um exemplo disso é o programa SBIR, nos Estados Unidos, que ajudou pequenas empresas e startups quando ninguém queria investir nelas.
Um caso interessante é o da Apple. Todo mundo admira a empresa como símbolo do sucesso do empreendedorismo privado, mas Mazzucato mostra que as tecnologias que tornaram o iPhone possível, como a internet, o GPS e a tela sensível ao toque, foram criadas com recursos públicos.
Steve Jobs foi genial ao juntar tudo isso e transformar em um produto revolucionário, mas a base tecnológica veio de investimentos feitos pelo Estado.
A autora também fala sobre o papel do Estado na revolução verde, essa mudança que busca uma economia mais limpa e sustentável.
Países como China, Alemanha e Brasil estão usando bancos públicos para financiar projetos de energia renovável. Sem esse tipo de apoio, seria bem mais difícil avançar na luta contra as mudanças climáticas e criar alternativas ao uso de combustíveis poluentes.
Outro ponto importante que Mazzucato levanta é a desigualdade entre quem assume os riscos e quem fica com os lucros. O Estado investe pesado em pesquisas arriscadas, mas quando os resultados aparecem, quem ganha mais são as empresas privadas. Ela defende que o Estado deveria ter uma parte desses lucros, para poder continuar investindo em novas ideias e tecnologias.
Ao fim, O Estado Empreendedor é mais que um livro de economia, a obra é um chamado para repensar como enxergamos o papel do Estado.
Mazzucato mostra que, para enfrentar os grandes desafios do nosso tempo, como as mudanças climáticas, a desigualdade e as crises econômicas, precisamos de um Estado corajoso, criativo e que não tenha medo de inovar.
Bernardino Brito é Diretor do CES – Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho e autor da resenha do livro de Mariana Mazzucato, O Estado Empreendedor.

Um comentário em “Para Além do Mito do Setor Público Lento”