
Bernardino Brito
“Santo Antônio, profeta dos pobres, encara a idolatria moderna do dinheiro. De um lado, o Evangelho que denuncia a usura e defende a dignidade humana; do outro, a Forbes que celebra trilionários e bilionários, símbolo da concentração absurda de riqueza. Entre fé e finança, permanece o chamado à justiça.”
Celebrar Santo Antônio nesse último 13 de junho de 2026 exigiu mais do que a fé tradicional no Santo, foi, na verdade, o colocar-se de uma humanidade envergonhada diante de Deus, por termos permitido a um homem tornar-se trilionário.
Infelizmente, há quem comemore tal feito, pensando ser algum tipo de virtude. Musk hoje tem uma fortuna equivalente a 46% da população do planeta, algo que deixaria Santo Antonio estarrecido, não tendo outra alternativa senão denunciar profeticamente, como fazia.
A Forbes nunca foi, na verdade, uma vitrine de sucesso, pelo contrário, ela anuncia a desgraça de um modelo político-econômico enfermo e falido. Na lista, 3.128 pessoas detêm uma riqueza equivalente a 20,1 trilhões de dólares. Estamos falando de uma riqueza produzida, PIB, do tamanho da economia chinesa, ou superior a 60% da dos EUA.
O problema de Santo Antônio, portanto, não são os casamentos, mas a péssima e cruel distribuição de renda no planeta.
O Papa Francisco respondeu certa vez a uma provocação: “defender e cuidar dos pobres não é comunismo, mas sim, Evangelho.”
O nosso grande Dom Hélder, também de feliz memória, já dizia: “quando dou de comer aos pobres, me chamam de Santo, mas quando questiono as causas da fome, me chamam de comunista.”
A vida de Santo Antônio nos trouxe esse exemplo do caminho a seguir. Discípulo de São Francisco de Assis, ele se destacou não apenas como pregador e teólogo, mas também como um profeta social, firme defensor dos pobres e crítico dos poderosos.
Santo Antonio denunciava com veemência a usura, chamando os banqueiros de “raça maldita” que devorava os bens dos órfãos e das viúvas. Para ele, enriquecer explorando a necessidade do próximo era um pecado gravíssimo, que clamava aos Céus por vingança.
Sua voz não se limitava ao púlpito, em 1231 sua pregação inspirou o prefeito de Pádua, Estevão Badoer, a decretar que ninguém poderia ser preso ou exilado por dívidas, um passo importante contra a crueldade da usura e em defesa da dignidade humana.
Assim, Santo Antônio não foi apenas o “santo casamenteiro” que o imaginário popular consagrou, ele foi um defensor dos pobres, um crítico da idolatria do dinheiro e da economia que mata, levantando sua voz contra a injustiça e exigindo que o Estado combatesse a farra dos bancos.
Também do autor: Desigualdade social global e crise climática, A correlação positiva entre a taxa de juros e a recuperação judicial; Para além do mito do setor público lento e Queda nos níveis de pobreza no Brasil.
Bernardino Brito é Diretor do CES – Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho

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