Dinheiro: em se plantando, dá…

imagem: Contexto Brasil

Daniel Féo Castro de Araújo

Publicado originalmente na Associação Brasileira de Economistas pela Democracia – ABED sob o título Financeirização da agricultura no Brasil

  A agricultura brasileira vive hoje uma transformação silenciosa, porém profunda, que redefine não apenas sua dinâmica produtiva, mas o próprio significado do território. Trata-se da financeirização da terra — processo pelo qual o solo deixa de ser essencialmente meio de produção e passa a operar como ativo financeiro global, integrado a carteiras de investimento, títulos negociáveis e estratégias especulativas. Longe de ser uma ruptura, esse movimento atualiza, em novas bases, uma trajetória histórica marcada pela concentração fundiária, pela mercantilização do espaço e pela subordinação do campo a interesses externos.

  Desde a Lei de Terras de 1850, o acesso ao território no Brasil tem priorizado a lógica da propriedade privada, excluindo formas coletivas e tradicionais de ocupação e consolidando uma das mais desiguais estruturas fundiárias do mundo. Ao longo do século XX, especialmente durante a chamada modernização conservadora, ampliou-se a produtividade agrícola sem alterar esse padrão de concentração. O crédito rural subsidiado, a expansão da fronteira agrícola e a incorporação de tecnologias da Revolução Verde transformaram o campo, mas preservaram — e, em muitos casos, aprofundaram — as assimetrias históricas.

  O que distingue o período recente é a entrada decisiva do capital financeiro como agente estruturante do agronegócio. A partir da crise global de 2008, a busca por ativos considerados seguros redirecionou fluxos de capital para a terra agrícola, especialmente em países como o Brasil, dotados de grande disponibilidade territorial e forte inserção no mercado de commodities. Nesse contexto, a terra passa a ser valorizada não apenas por sua capacidade produtiva, mas como reserva de valor e instrumento de especulação.

  Esse processo se materializa em um conjunto de instrumentos financeiros e legais que aproximam o campo dos circuitos globais de acumulação. Títulos como CPR, LCA e CRA, e mais recentemente os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), permitem transformar fluxos futuros de produção em ativos negociáveis no presente. A Lei 13.986/2020, ao instituir a Cédula Imobiliária Rural e fortalecer os Fiagros, representa um marco nessa trajetória, ao viabilizar a fragmentação da propriedade da terra em cotas e sua circulação em bolsas de valores.

   Os efeitos dessa transformação são profundos. Em primeiro lugar, a financeirização tende a intensificar a concentração fundiária. Dados do Censo Agropecuário mostram que o índice de Gini da terra no Brasil alcança patamares extremos (0,867), com cerca de 1% dos estabelecimentos controlando quase metade da área agrícola, enquanto a maioria dos produtores ocupa parcelas ínfimas. A lógica financeira, ao privilegiar grandes extensões contínuas e ativos de alta liquidez, reforça esse padrão, ampliando a pressão sobre pequenas propriedades e territórios tradicionais.

   Em segundo lugar, há uma reconfiguração das relações de poder no campo. A presença crescente de fundos de investimento, bancos e corporações transnacionais desloca o centro decisório para fora dos territórios. O controle da terra passa a ser exercido por agentes muitas vezes desterritorializados, cujas decisões são orientadas por critérios de rentabilidade e risco, e não por necessidades sociais ou produtivas locais. Essa dissociação entre propriedade e uso aprofunda conflitos e fragiliza a governança territorial.

   Regiões de fronteira agrícola, como o MATOPIBA, tornam-se laboratórios privilegiados desse processo. Nesses espaços, a valorização acelerada da terra, impulsionada por expectativas financeiras, convive com o avanço sobre biomas sensíveis, como o Cerrado, e com o aumento de conflitos fundiários. A expansão de monoculturas voltadas à exportação, associada à atuação de grandes investidores, intensifica a expropriação de comunidades tradicionais e a degradação ambiental.

   Há também uma dimensão geopolítica que não pode ser ignorada. A atuação de grandes corporações globais — como tradings agrícolas e fundos internacionais — revela a inserção do território brasileiro em estratégias mais amplas de controle de recursos naturais. A terra, nesse contexto, torna-se não apenas um ativo financeiro, mas um vetor de poder. A crescente estrangeirização, ainda que mediada por estruturas jurídicas complexas, levanta questões sobre soberania e capacidade de planejamento nacional.

   Paradoxalmente, esse processo ocorre em um país que ainda enfrenta desafios graves de insegurança alimentar. A priorização de commodities para exportação, orientada pela lógica financeira, convive com o aumento do custo dos alimentos e com a dificuldade de acesso a uma dieta adequada para parcelas significativas da população. A terra, transformada em ativo, deixa de cumprir plenamente sua função social de garantir a produção de alimentos e a reprodução da vida.

   É importante destacar que a financeirização não se limita a instrumentos econômicos. Ela é também sustentada por uma construção política e discursiva que associa o agronegócio à modernidade, à eficiência e à solução para os problemas do país. Esse imaginário, difundido por atores institucionais e corporativos, legitima a expansão de mecanismos financeiros e a flexibilização de regulações, muitas vezes invisibilizando seus impactos sociais e ambientais.

   A criação de instrumentos como os Fiagros, a expansão do mercado de títulos do agronegócio e a abertura a capitais internacionais refletem uma estratégia de desenvolvimento que prioriza a integração aos mercados globais sob a lógica financeira. Essa opção, no entanto, não é neutra: ela produz ganhadores e perdedores, redefine territórios e condiciona o futuro do país.

   Um projeto nacional comprometido com o desenvolvimento soberano, inclusivo e sustentável precisa enfrentar esse debate. Isso implica fortalecer a capacidade do Estado de regular o uso da terra, orientar o crédito e o investimento, e garantir que o território cumpra sua função social. Significa também valorizar a agricultura familiar, proteger comunidades tradicionais e promover formas de produção compatíveis com a preservação ambiental.

   A terra não é um ativo qualquer. Ela é base material da existência, suporte da produção de alimentos, da biodiversidade e das relações sociais. Reduzi-la a instrumento de valorização financeira é subordinar o futuro do país a uma lógica volátil e concentradora. O desafio que se coloca é reverter essa tendência, recolocando o território no centro de um projeto de desenvolvimento que combine eficiência econômica com justiça social e sustentabilidade ambiental.

Daniel Féo Castro de Araújo é pós-doutorando em Geografia na UnB, doutor em Geografia Humana e mestre em Ciências Sociais. Pesquisador vinculado à UNICAMP e a redes internacionais, investiga a financeirização do agronegócio, dinâmicas territoriais e transformações do trabalho no campo.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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