As contribuições da Ciência na agricultura brasileira

Da genialidade nacional desenvolvimentista ao negacionismo neoliberal

O Bonifácio.net trouxe em março artigo de Luciano Rezende Moreira sobre os “números incontestáveis da Embrapa” – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária no desenvolvimento agropecuário nacional e o seu descaminho nos anos recentes.

A hipótese de um progresso sustentável, guiado pela mão invisível do mercado, já foi refutada na prática há anos. Os números que comprovam esse fracasso são retumbantes em todas as áreas.

Não há mais discussão no campo da racionalidade com os neoliberais. Segundo a lógica do Consenso de Washington, é mais rentável comprar tecnologia forânea do que investir na ciência básica local, considerada por eles dispendiosa. Pari passu ao desmonte das políticas de C,T&I patrocinado pelos governos neoliberais, ganha força um movimento obscurantista, conhecido como negacionismo científico.

Foi por meio de fortes investimentos em ciência que se conseguiu, em pouco mais de quatro décadas, multiplicar por mais de sete vezes a produção de grãos no País, enquanto a área plantada tenha apenas dobrado de tamanho nesse mesmo período. Dentre os investimentos na pesquisa agrícola em geral, chama atenção o desenvolvimento das ciências agrárias em algumas áreas estratégicas que permitiram a melhor compreensão sobre os solos brasileiros, sobretudo os do cerrado, e a adoção de um melhor manejo com o plantio direto na palha e as devidas correções (calagem) e adubações. Isso sem falar da Fixação Biológica do Nitrogênio, “presente hoje em 75% da área cultivada de soja”.

Acrescente-se a esta vasta lista de contribuições da ciência brasileira as inúmeras inovações em diversos outros setores que se destacaram na irrigação; na mecanização agrícola; no armazenamento; no manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas (com destaque para os controles biológico e comportamental); no monitoramento das lavouras, no transporte e na logística e em tantas outras áreas.

Mas um segmento em especial que a ciência nacional se destacou imensamente merece ser sublinhado neste artigo: a genética.

Justamente a genética, esse ramo fascinante da biologia, por meio de seus programas de melhoramento consolidados em várias universidades e unidades de pesquisa públicas pelo Brasil afora, é atacada por fanáticos que a consideram uma das responsáveis pelas mais diversas anomalias e aberrações, como a própria produção de doenças infecciosas como a Covid-19.

[Por exemplo,] Graças ao melhoramento genético e outras técnicas, a batata inglesa saltou de uma produtividade média de 4,95 toneladas por hectare na década de 1940 para 21,37 toneladas por hectare na última década no Brasil, superando a média mundial de 16,93 toneladas por hectare (SILVA & JADOSKY, 2015).

Em “A dialética da Natureza”, Engels fez a seguinte exaltação: “Nos países industriais mais avançados, domamos as forças da Natureza e compelimo-las ao serviço dos homens; com isso, multiplicamos a produção ao infinito”. Mas, logo em seguida, demarcou: “E qual é a consequência? Trabalho excessivo crescente e miséria crescente das massas”.

Ou seja, o incremento da produção agrícola é algo extraordinário e só é possível devido ao fato de o homem, pela primeira vez, por meio da ciência, dominar a natureza. (+6.097 palavras, Bonifácio)

Resumindo

Todo o investimento público feito até hoje na Embrapa é menor que o imenso ganho proporcionado por apenas uma tecnologia desenvolvida por seus pesquisadores. Quando pensamos nas diversas outras inovações, o saldo positivo é incalculável. Mas essa conta não fecha na cabeça de um neoliberal, afeito que é ao imediatismo dos resultados.

A frase de Carl Sagan, na abertura deste artigo, nada mais é que uma versão mais científica de ditado popular muito conhecido em nosso País: “errar é humano, permanecer no erro é burrice”.

O neoliberalismo formulou suas hipóteses. Uma por uma foi caindo por terra ao longo das últimas décadas. Natural que fracassasse. Daqui pra frente é aceitar os fatos. A realidade que se impõe: é necessário retomar o papel do Estado em um novo projeto nacional de desenvolvimento também para a agropecuária brasileira.

Luciano Rezende Moreira é doutor na área de melhoramento genético de plantas (UFV), mestre em entomologia (UFV) e especialista em Manejo Integrado de Pragas (UFLA). É graduado em agronomia (UFV), geografia (Uerj) e administração pública (UFF). Atualmente é professor no Instituto Federal de Brasília (IFB).

Tema conexo: O agro é pop?

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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