Radiografia do “modelo brasileiro de desenvolvimento”

No Capítulo 9 do Pensamento Nacional-desenvolvimentista vem a conclusão de “Brasil: radiografia de um modelo”, de 1974, em que Nelson Werneck Sodré disseca as correlações entre o capitalismo monopolista de Estado dos centros econômicos globais e a estrutura repressora aplicada sobre a sociedade brasileira. Como se verá, a sanha repressiva atual tem muito de sua origem no mesmo problema verificado há quase meio século.

Decorrida uma década desde o assalto armado ao poder constitucional do governo João Goulart, o historiador esclarecia:

A eliminação da democracia foi o processo político cirúrgico com que os interesses externos conseguiram implantar no Brasil o chamado “modelo brasileiro de desenvolvimento”, que aparece como o modelo consequente da dependência em relação ao capitalismo monopolista de Estado, estabelecido nas áreas do mundo ditas desenvolvidas, isto é, aquelas em que o capitalismo atingiu a referida etapa.

As reformas visavam modernizar os processos e técnicas brasileiros e integrar o capitalismo brasileiro à economia internacional, sob os laços da dependência – qualquer semelhança com os estudos e práticas dos mandatários do período democrático não terá sido mera coincidência.

Segundo Werneck, um “modelo brasileiro de desenvolvimento” cujo sucesso fosse “conveniente ao capital externo e, evidentemente, à reduzida minoria empresarial brasileira, rotinada na servidão e condicionada pela parcela de lucro que lhe cabe” não podia prescindir de um governo autoritário, já que sacrificava “os mais altos e numerosos interesses de todo um povo”. Nas suas palavras, tratava-se, como se trata hoje, da sujeição da “estrutura econômica aos interesses do capitalismo monopolista de Estado vigente nos países matrizes imperialistas”.

O “modelo” já era então velharia conhecida desde os tempos de colônia, de feições primário-exportadora, com os minérios tomando praça do café, opressor do setor industrial, em processo de liquidação nos anos 1970 quanto à participação de capitais nacionais privados.

Entre os mecanismos de controle externo apontados pelo general estavam, como hoje estão, o endividamento externo; a submissão tecnológica; e a imposição de preços deteriorados nas trocas internacionais. A isso soma-se a associação do setor estatal, em condições desvantajosas para o país, ao setor monopolista estrangeiro.

Era um tempo, os anos 1970, de expansão do capital monopolista estadunidense sobre as economias da periferia: em casa, até quatro grupos dominavam mais de 80% dos respectivos ramos industriais; no exterior, as corporações criaram mais de 800 subsidiárias, montadas com base na sucata tecnológica inservível na produção da matriz.

O avanço econômico então obtido no Brasil – conhecido como “milagre econômico” – foi obtido face a índices anteriores muito baixos aproveitava-se da combinação entre o uso da capacidade industrial ociosa e o aviltamento dos salários, esclarecia Werneck.

Nos correntes dias o movimento internacional de capitais, desfavorável ao Brasil e outros países dependentes, é mais danoso ao país do que há meio século, já que se resume à transferência de propriedade do que já existe, sem ampliação ou melhora do parque industrial local.

A perda dos empregos e a crise sanitária têm movido objetivamente um número crescente de brasileiros à insatisfação com o modelo repaginado de desenvolvimento sob dependência. Quanto a isso, o desejo de repetir o indébito: usar da força ditatorial para obter a paz social, que cada vez mais caminha ao cemitério.

Como conclui o autor da radiografia:

O que define o chamado “modelo brasileiro de desenvolvimento” não são os índices quantitativos altos — o Kuwait também os apresenta —, mas o regime. É o regime que o retrata, fielmente, integralmente, verdadeiramente.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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