Novamente pobreza, miséria, fome

Frederico Lopes Neto

Reveja a Parte I e a Parte II destes Apontamentos.

Nesta parte III do texto, finalizando os Apontamentos, retomo o item com o qual iniciei a difusão de minhas preocupações em relação aos seres humanos em seu habitat, o planeta Terra, transcrevendo o verbete “COMUNA PRIMITIVA”1:

Primeira formação social que, durante dezenas de milênios, existiu em todos os povos na etapa primitiva de seu desenvolvimento. Na comuna primitiva, as relações de produção estão fundamentadas na propriedade coletiva dos meios de produção. Os instrumentos, a terra, a habitação, etc, eram propriedade comum da coletividade, da horda, do clã. A propriedade individual dos utensílios domésticos, as vestes, etc., existe dentro da propriedade coletiva dos meios de produção. Não existe exploração do homem pelo homem; não há classes nem Estado. Os homens primitivos vivem em grupos nômades e buscam os meios de subsistência recolhendo plantas comestíveis e dedicando-se à caça. Produzem em comum, clãs inteiros, com ajuda de instrumentos primitivos; os produtos de seu trabalho são igualmente consumidos em comum ou divididos em porções iguais. O caráter das relações de produção na comuna primitiva é explicado pelo baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas, pelo estado rudimentar dos instrumentos de produção, pela ausência da divisão social do trabalho. Unicamente em comum podem os homens primitivos assegurar-se dos meios de existência e proteger-se contra as feras e as tribos vizinhas.

A primeira grande divisão social do trabalho – separação da criação de gado da agricultura – aconteceu como resultado de um desenvolvimento mais rápido das forças produtivas da sociedade primitiva. Os intercâmbios multiplicam-se, aparece a propriedade privada e com ela a desigualdade econômica dos membros da comunidade. A primeira grande divisão social do trabalho e a propriedade que ela engendra, produzem o aparecimento da escravidão, o que acentua ainda mais a desigualdade econômica e contribui para desagregar a comunidade primitiva. Depois de haver estimulado o desenvolvimento das forças produtivas, a produção coletiva e a distribuição igualitária dos produtos, converte-se em seu obstáculo. Na etapa superior da sociedade primitiva, produz-se a segunda grande divisão social do trabalho: a separação das profissões e da agricultura, o que intensifica a destruição da comuna primitiva. A riqueza e a pobreza, a exploração, as classes e o Estado, aparecem. A comuna primitiva desaparece definitivamente e dá lugar à sociedade de classes, à escravidão e ao feudalismo. (grifo meu)

A transcrição acima salienta o surgimento das classes e seu corolário, o Estado: ditadura da classe dominante. A pobreza, a miséria e a fome passam a ser, desde então até nossos dias, as maiores desgraças que se abatem, ainda que de forma diferenciada, sobre as classes subalternas! Fato semelhante (exploração, desigualdade) também se estabelece entre países.

Já registrei dados da Unicef de aumento da insegurança alimentar e nutricional, aumento da fome no mundo, na Parte II destes apontamentos. Algumas exceções localizadas, entre outras prováveis: o governo da China anunciou recentemente (2020) avanços significativos na redução da miséria em seu país; nos governos encabeçados por Lula e Dilma (2003-2016), também se reduziu significativamente a miséria em nosso país. Desde o golpe de 2016 até hoje o Brasil retrocedeu e apresenta crescimento acelerado do desemprego, pobreza, miséria e fome!

O tema, População Mundial, que escolhi para publicar, como provavelmente ocorreria com qualquer outro, gera polêmica, posições diversas, inclusive antagônicas. Há posições que contestam as projeções da ONU, apresentadas no início da Parte I, de que seremos aproximadamente 11 bilhões de seres humanos ao final deste século; outras sugerem visões para melhorar o planeta Terra. Há quem defenda que já nos aproximamos para um máximo populacional, em torno de 8 bilhões de habitantes, com patamar estável até meados do século XXI, e a partir daí diminuição da população global. Dorrell Bricker e John Ibbitson publicaram recentemente o livro “Empty Planet – The Shock of Global Population Declive”2 no qual manifestam posição divergente à prevista pela ONU. Edward Osborne Wilson em seu livro “Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life”3 apresenta proposta de recuperação da Natureza.

De minha parte, não me proponho a previsões de futuro. Quero, porém, levantar questões para reflexão, fazendo recorte em dois fatos novos que estão atualmente ocupando espaços de mídia: as chamadas “quarta revolução industrial (a 4.0)” e a “quinta geração de equipamentos de comunicação (a 5G)”, com as quais não tenho intimidade!

Os fatos revelam que a população cresce e, logicamente, demanda mais meios de sobrevivência e serviços sociais.  Por outro lado, o capitalismo na sua fase atual, imperialista/financeira gera continuamente desemprego, exclusão, fome e outras mazelas para a população crescente, pois, em todos os setores da economia (primário, secundário e terciário), amplia cada vez mais o capital fixo em detrimento do capital variável, eliminando postos de trabalho. Solo, subsolo, água, são posses privadas ou estatais, aos quais o povo não tem acesso… Eis o impasse fundamental entre capital x trabalho.

As denominadas revoluções 4.0 e 5G, ora em processo de implantação, apontam para o acirramento de outro impasse, interligado ao já mencionado: produção x consumo.  A produtividade (quantidade, qualidade e diversidade de produtos) tende a se ampliar consideravelmente enquanto a capacidade de consumo das imensas massas excluídas se comporta em sentido inverso. O capitalismo, com as revoluções 4.0 e 5G, tende a ser muito mais excludente, cada vez mais elitizado!

Todas as formações sociais duradouras tiveram início, desenvolvimento, decadência e fim. Para um ser humano explorado, excluído, nascido e criado dentro de um desses sistemas é bem provável que não conseguisse vislumbrar outra forma de organização sócio/político/econômica. Unido aos seus, coletivamente, a situação muda, a possibilidade de detectar as contradições do sistema é maior, bem como a organização para lutar por sua mudança e superação. O capitalismo se reinventa constantemente, mas não eternamente: do ponto de vista histórico, será extinto!

A sociedade atual registra experiências com formas de superação do capitalismo. O povo aprende com os avanços e recuos que experimenta: há de revolucionar as forças produtivas e as relações de produção, simultaneamente com a formação do ser humano novo. No curso do processo histórico, há de criar condições objetivas e subjetivas para construir uma nova formação social superior, possível.

Frederico Lopes Neto, o Fred, mora em São Vicente, é geógrafo, professor e autor destes Apontamentos sobre a população mundial. Esta é a Parte III, final, publicada em 10.1.2021.

Fontes:

  1. ROSENTAL, M e IUDIN, P, Pequeno Dicionário Filosófico, pp.85 e 86
  2. www.ecodebate.com.br
  3. www.amazon.com.br

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

3 comentários em “Novamente pobreza, miséria, fome

  1. Extraordinário esforço para a compreensão das forças sociaisa. Mesmo não sendo original nós leva a sonhar com uma utopia da qual a humanidade jamais participou em sua formulação. Este o primeiro obstáculo ao socialismo. Quando houve essa consulta popular para a criação de uma sociedade comunista? Ao contrário, todos os esforços para a adoção do socialismo fora muito dolorida com os protagonistas iluminados tripudiando sobre a ignorante massa populacional manietada nos meios de produção capitalista que se deixa escravizar. Lembro que a escravidão nasce no Egito contra o povo hebreu depois de uma fome por escassez de alimentação. Não quero dizer que toda escravidão nasce por submissão condicionado por motivos econômicos e sociais. Este exemplo por si só basta para interromper a narrativa sovada da exploração do homem pelo homem. Pelo menos nas sociedades tribais não se verifica uma hierarquia vertical como nas tribos Tupy e ou Guarany onde a distribuição de poderes é muito horizontal e diluída entre o cacique e o pajé. Carece de total fundamentação histórica a Iza déia de propriedades comuns na pré história. Pois os homens e comunidades nômades apenas compartilham da natureza sem a ideologia de propriedade e produção coletiva como deixou registrado o grande chefe Cherokee ao receber dos holandeses a proposta da venda das terras de Manhattan:”não podemos vender o que não pertence ao homem. O ar, os rios, as aves, os animais, a terra, o vento”. Essa noção de propriedade é muito moderna. Quanto ao capitalismo este não tem consciência de sua existência. Não é possível sequer dizer qual sistema social encontrado em um Estado seja capitalismo ou de qual grau de capitalismo e sua extensão estrutural, como um capitalismo canadense ou um capitalismo em Ghana ou paraguaio são tão diversos como as espécies de peixes do mar. São todos peixes porém todos completamente diferentes.

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  2. Continuando o debate sobre pobreza e miséria. Dois conceitos relativisticos que impressionaram ao grande matemático e físico Einstein. Os conceitos absolutos caíram desde a criação da física quântica. Desde que Fresnel, Maxwell e Borh refizeram metodologia científica baseada exclusivamente em observação quando os olhos humanos deixaram de ser confiáveis e o senso comum das coisas lógicas e óbvias falharam para tentar explicar o fenômeno da fenda dupla submetida ao feixede fótons. Então começou do zerom tudo que as nossas expectativas nós apontam não valem mais. Nem ao menos podemos nos orientar pela experiência sensorial. A física quântica mudou nosso cérebro e nossa visão da realidade. Tudo é nada. Nada é tudo. O universo pode ser apenas uma enorme simulação. O big Bang pode ter iniciado da explosão do nada. Tempo e espaço estão sendo criados nesse instante. Então com que segurança podia se falar em pobreza e miséria como conceitos de medida da felicidade pessoal? Com que aitoridade se estabelece os parâmetro e variáveis capazes de identificar o limiar de necessidades humanas? Há pouco mais de seis mil anos nossas princesas egípcias andavam descalços e com os seios nus. Em cem anos não sabíamos o que era penicilina. Nem sabíamos o que era o DNA. Hoje a teoria da evolução de Darwin atropela a ciência estatística estritos senso. Quer nos impressionar com comparações esdrúxulas sobre padrões de sociedades entre os angolanos e os suecos. A distribuição assimétrica da georiqueza no mundo é anômala. 90% das terras secas está no hemisfério Norte e 90%da população vive no hemisfério Norte. Quase todos os oceanos estão no hemisfério Sul. As riquezas de hoje jamais serviriam aos egípcios há quatro mil anos. O que fariam os egípcios com as reservas de petróleo da Arábia Saudita? Ou o que fariam com as reservas de urânio da Rússia? O que fariam com as reservas de nióbio brasileiro? A ideia de riqueza é condicional econtingente de muitas variáveis objetivas e subjetivas.

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