O dinheiro, sua história e a acumulação financeira (2)

Notas da Aula 2

Base Monetária

O Banco Central pode emitir dinheiro sem lastro? Isso seria especulação financeira?

Como funciona a remuneração da sobra de caixa dos bancos pelo governo?

A base monetária de alta liquidez é composta pelo dinheiro em circulação e reservas bancárias das instituições financeiras (M1). Em sentido mais amplo, incluem-se aplicações financeiras de curto prazo (M2), cotas de fundos de renda fixa (M3) e títulos em geral (M4). Sob diretriz do Conselho Monetário Nacional, o Banco Central pode expandir ou fazer expandir a base monetária, seja por operações próprias com o Tesouro, seja direcionando os bancos a criarem mais moeda com operações de crédito.

Por exemplo, com a calamidade pública o BC liberou depósitos dos bancos de R$ 1,2 trilhão, esperando que estes multiplicassem o dinheiro no financiamento a empresas e pessoas no enfrentamento à crise sanitária. Como o dinheiro emprestado, em algum momento, vai ser depositado nos bancos, há mais dinheiro no total, pois os bancos têm a dívida do tomador original a receber (título do M4) e novos depósitos e aplicações das empresas e consumidores (integrantes do M2).

O BC remunera os depósitos compulsórios com origem em depósitos a prazo, como CDB e poupança, mas não os depósitos a vista. São compulsórios os depósitos determinados pela autoridade monetária com objetivo de política monetária – contrair ou expandir os recursos disponíveis à atividade financeira. Assim, a remuneração da “sobra de caixa” dos bancos (a reserva bancária) depende da origem do dinheiro.

Também dentro dos limites estabelecidos pelo CMN, o BC pode comprar e vender títulos, arcando com a remuneração junto às instituições vendedoras. Estuda-se também a modalidade de depósito remunerado, voluntário, cujo montante poderia ser deduzido dos compulsórios, levando, no limite, à substituição destes por aqueles.

Moeda digital

O que são as moedas digitais, e como funcionam?

As moedas digitais, ou criptomoedas, são espécies de moeda fiduciária sem representação física em metais ou cédulas. Elas existem unicamente como registros de computador, podendo ser soberanas – emitidas e controladas por Estados nacionais – ou não, como o caso dos bitcoins, cujo valor de troca deriva unicamente da confiança mútua entre os participantes de uma rede de computadores de acesso individual, onde ficam registrados os saldos de cada um e as movimentações financeiras do grupo.

Para mais detalhes, sugerimos a leitura dos nossos quatro artigos sobre o tema e também sobre a criptomoeda soberana chinesa.

Sistema Financeiro

Seria importante colocar nosso dinheiro nas fintechs e bancos virtuais menores?

Todas as instituições financeiras, no Brasil, devem ter seu funcionamento previamente autorizado pelo BCB, assim como pela autoridade também são aprovados seus administradores. Após o início das operações, todas elas são submetidas à supervisão estatal, sendo-lhes exigido conhecer e mitigar os riscos que contrai com o dinheiro dos depositantes.

Assim, a relevância do tamanho e tecnologia operacional de cada uma aplica-se principalmente ao custo que é repassado pelos clientes. Como cada uma tem um política de crédito e investimentos, pode ser de interesse colocar o dinheiro naquelas voltadas ao financiamento de projetos afins ao gosto do freguês.

Operações financeiras

Como está curva hoje de investimentos em ações?

Existe uma onda de investimentos em papéis, tal situação aumenta a desigualdade social com a acumulação de riqueza?

Existem muitos tipos de papéis – físicos ou eletrônicos – circulando na economia. Destaque-se aqueles que representam o todo ou parte de um ativo real, como um registro de imóvel, um certificado de mercadorias ou uma ação de uma empresa; há papéis que representam um direito, como um certificado de depósito bancário ou um termo de empréstimo, em que o credor receberá, em data futura, uma quantidade de moeda; e por fim criou-se a figura dos derivativos, papéis que representam outros papéis.

Todos eles podem ser negociados por um preço de comum acordo entre o vendedor e o comprador, transferindo renda e bens entre eles; e são igualmente sujeitos a movimentos especulativos, apostas no valor futuro dos papéis e dos bens e direitos por eles representados.

Assim, não é exatamente o investimento que concentra renda, mas a forma como os papéis correspondentes são transacionados entre os agentes econômicos. Em geral, quem tem muito e é bem assessorado, consegue tirar vantagem de quem é menor para além do valor de uso da mercadoria trocada.

Vejamos a curva de ações no Brasil, traçada pela TradingView:

Mesmo em um período de estagnação econômica, em que a produção no Brasil (o PIB) não variou acima do crescimento populacional, o preço médio das ações negociadas em bolsa triplicou. O indivíduo, obviamente, só terá o equivalente financeiro em conta corrente se vender as ações, de modo que nem todos ganharão de fato o dinheiro que parece haver nessas empresas.

Mas há outro ganho de curto prazo: não só nos movimentos mais bruscos de queda, quem vende ações no pico e recompra no vale seguinte aumenta seu estoque de ações, obtendo ganhos por conta dos que fizeram o movimento oposto, causando transferência de riqueza, por assim dizer, sem por a mão no bolso.

Crédito

As taxas de juros cobradas pelos bancos em operações de crédito são exorbitantes e não acompanham as quedas da Taxa Selic, compensada pela alta da taxa de inadimplência. Como proteger o consumidor?

Até quantos por cento os bancos liberam para as pequenas empresas?

Por que as linhas de crédito do BNDES são mais voltadas para as grandes empresas e pouco se vê de linhas de crédito para as pequenas empresas?

Como se enquadram os cartões de crédito?

Como fica a questão o PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) no balanço dos bancos?

As operações de crédito são as mais típicas entre as possibilidades da intermediação financeira. Os bancos recolhem dinheiro de quem pode e quer poupar para emprestar a quem quer consumir ou investir, mas não tem recursos disponíveis. O quanto do pedido o banco atenderá depende, principalmente, da análise da capacidade futura de pagamento do cliente e do seu caráter, a sua vontade de pagar. O preço do crédito – os juros – serão ofertados pelo emprestador considerando outras oportunidades de negócio que tenha e os riscos de parte dos clientes não honrarem os seus compromissos, ou seja, a inadimplência esperada. Algo como “os bons pagam pelos maus”.

Além da opção de não pegar dinheiro emprestado, o consumidor e a pequena empresa precisam de assessoria neutra para ao menos saber o que irão de fato pagar. Os gerentes das agências são vendedores de produtos de interesse das instituições onde trabalham e ganham comissão sobre o que conseguem colocar na praça.

Os juros cobrados são, em geral, bastante superiores à taxa básica de curto prazo, a Selic, que os bancos podem receber sem riscos. Abusos nas relações individuais com cada clientes podem ser contidos no amparo da Lei de Defesa do Consumidor. Do ponto de vista mais geral, a regulação das taxas de juros cabe ao Banco Central e, destarte a obrigação de estimular a concorrência bancária, é usada muito mais como instrumento de política monetária para controlar a inflação. Se o BC, como agora autorizado, oferecer crédito diretamente ao público, a tendência do mercado financeiro é reduzir os juros para não ficar de fora do mercado de crédito.

Alguns créditos são direcionados para, por exemplo, financiamento da atividade rural ou construção de moradias, mas a maior parte é de livre opção dos bancos e financeiras.

Em geral, créditos de interesse social são operados por bancos públicos, como é o caso do financiamento agrícola (BB), habitação (CEF) e desenvolvimento industrial (BNDES). Os demais bancos operam segundo obrigação de aplicação de parte das captações ou agentes distribuidores das ofertas desses bancos.

Assim, uma pequena empresa pode obter recursos do BNDES a partir do banco em que tem conta corrente. Mediante uma comissão, esse repassa o recurso do banco de desenvolvimento, já que o mesmo concentra a atividade da sua equipe na análise de grandes projetos.

Os cartões de crédito são instrumentos adicionais para facilitar o uso do crédito, especialmente por pessoas físicas. O emissor estabelece um limite de uso para o  cada portador pelas mesmas regras de outras modalidades, mas não se peja em incentivar o pagamento mínimo de cada fatura, pois após o vencimento incidem sobre o saldo devedor os juros mais caros do mercado, semelhantes ao cobrado do cheque especial.

Câmbio

O que determina a variação do câmbio financeiro?

Grosso modo, o dólar nos últimos anos passou de um câmbio de 2×1 para 4×1 com relação ao Real. Isso significa que diretamente encolhemos em 50% em termos de poder econômico ou há outra interpretação?

As reservas internacionais do Brasil são cuidadas pelo Banco Central e nominadas em moedas estrangeiras, principalmente o dólar dos EUA (92% das operações). Sempre que alguém compra dólares para usar ou enviar como pagamento ou transferência para o exterior ou, no sentido inverso, vende dólares recebidos de fora para obter reais, realiza uma operação de câmbio financeiro, interferindo no total das reservas do país. As transações entre instituições financeiras autorizadas a operar no país envolvendo moeda estrangeira também se classificam nessa categoria.

O BC vende e compra moedas estrangeiras a um número limitado de instituições financeiras, entre as principais operadoras do mercado de câmbio. A motivação pode ser disponibilizar moeda para as operações com clientes não financeiros ou regular o preço da moeda. Os líderes (dealers, em inglês) contratam operações com seus clientes e com outros bancos que também precisem da moeda para atender seus clientes mediante uma margem de lucro.

Assim, o preço do dólar, por exemplo, parte da cotação oferecida pelo BC, mas é majorado no seu caminho para o varejo.

Em vinte anos (até 2019), o PIB brasileiro cresceu cerca de 60% em dólares dos EUA em valores constantes, de USD 1,5 a 2,3 trilhões. O que variou no período mais recente, para menos, foi a capacidade de compra dos brasileiros no exterior, inclusive para importar bens de consumo e máquinas, permitindo, no lado das exportações, vender mais barato em moeda estrangeira.

Mais Valia

O trabalhador bancário gera mais-valia?

A mais-valia equivale diferença entre a realização de uma mercadoria – sua efetiva troca por dinheiro ou outra mercadoria – e o custo da reprodução da força de trabalho. Na cadeia produtiva, em cada etapa ela se realiza e é apropriada pelo proprietário da mercadoria vendida.

Os bancos procuram se apropriar de parte dela sem realizar qualquer mercadoria, de modo que não nos parece que a gerem, embora tenham custos inclusive de mão-de-obra assalariada arcados na sua operação.

Assim, o bancário não gera mais-valia, mas reduz, pelo preço da reprodução da sua própria força de trabalho, a apropriação da mesma pelo capital financeiro.

Observações

A formação da consciência é capaz de transformar o mundo.

​O sistema que nós vivemos no Brasil e na maioria dos outros países é muito perverso! Mesmo em momentos de crise, onde as pessoas teriam que se ajudar, um grupo muito pequeno anda contra mão, enriquece ainda mais ​com o sofrimento do povo.

Como dizia o Barão de Rotschild, na crise, compre. É próprio do instinto de preservação a liquidação de ativos por preços inferiores quando o caixa não é suficiente para as contas a pagar. Assim, o dono de uma empresa em dificuldades prefere vende-la a preço baixo a vê-la quebrar e perder tudo. Não falta quem queira comprar ativos com bom desconto, aumentando a riqueza não pelo tanto que gastam, mas pelo que o objeto da compra realmente vale.

A concentração de riquezas e propriedade dos meios de produção é própria do capitalismo, não depende da vontade do indivíduo em absorver o que é de outros. Se não o fizer, outros o farão, inclusive com ele próprio, que assim seria reconduzido à condição de proletário.

A caridade cumpre a função de manter viva a força de trabalho, para que dela se possa aproveitar a produção e venda de mercadorias e a realização de mais-valia, como visto acima.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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