
Marco Túlio da Silva
A palavra veio do verbo em inglês to bet (apostar) e passou a ser usada no Brasil para denominar tanto o ato de apostar quanto as próprias empresas do setor.
As bets chegaram como brincadeira, viraram hábito, ganharam o futebol, entraram no bolso e, quando percebemos, já tinham chegado ao consultório e se tornado um problema sistêmico e de interesse público. Agora, o governo mandou desligar o cassino. Mas será que basta tirar o aplicativo para tirar a aposta da mente?
Primeiro são 10 reais. Depois, 20. Depois, “só para recuperar”. Quando a sociedade percebeu, o cassino já não ficava em Las Vegas: cabia no celular, patrocinava o futebol, frequentava a sala de jantar e mandava notificação às três da manhã. Afetou a saúde mental, a saúde pública e a vida de todos. E como não percebemos o problema?
A metáfora do sapo ajuda a entender. Coloque o sapo numa panela de água fervente e ele pula fora. Coloque-o numa panela de água fria e aumente a temperatura lentamente. O sapo, distraído, permanece ali até descobrir que o spa virou caldeirão.
Que fique registrado que a ciência desmente a história, mas há metáforas que sobrevivem justamente porque são melhores do que os fatos. E esta é perfeita para explicar o Brasil das bets. Só há uma diferença: a evolução silenciosa das bets impactou a sociedade e o Estado.
As bets chegaram ao Brasil sorrindo. Vieram vestidas com a camisa do time de futebol do coração de cada um. Vieram patrocinando times, transmissões, programas esportivos e influenciadores. Vieram acompanhadas de uma expressão típica do capitalismo contemporâneo: “Aposte com responsabilidade.”
É uma frase extraordinária. Quase tão reconfortante quanto “beba com moderação” impressa numa embalagem de bebida alcoólica. A civilização moderna tem um talento impressionante para vender a tentação associada aos mecanismos de recompensa e, ao mesmo tempo, oferecer a ilusão de autocontrole do instinto.
Tudo começa inocentemente. Dez reais. “Só para brincar.” Quando se percebe, já está em 100. O pensamento vem: “Agora eu recupero.” O cidadão não perdeu R$ 100; ele está “a uma entrada de recuperar”, está “fazendo gestão de banca”. Quando os valores aumentam, vem o pensamento: não perdeu o salário, está “reorganizando a estratégia”.
Pegou dinheiro emprestado? Alavancagem. Brigou com a família toda? Estresse. Não dormiu? Ansiedade. Perdeu novamente? “Hoje não era meu dia.” A inteligência humana é sagaz. Ela consegue transformar uma tragédia financeira em vocabulário de planejamento financeiro.
Freud teria trabalho aqui. Não porque o vienense tivesse confabulado com Nostradamus e deixado alguma fórmula para lidar com a bet brasileira, mas porque passou a vida desconfiando de uma coisa que nós adoramos considerar inexistente: a compulsão de repetir no afã de vencer.
O sujeito perde e aposta para recuperar. Perde de novo e aposta para recuperar o que perdeu tentando recuperar. É uma espécie de areia movediça viciante. A conta não fecha, mas a insistência persiste. E então o jogador já não está apostando para ganhar. Está apostando para apagar a derrota anterior. O dinheiro, nesse ponto, deixa de ser dinheiro. Vira uma espécie de dívida emocional, atravessada pelos mecanismos de recompensa e expectativa. Os psicólogos e psicanalistas podem explorar melhor isso.
O cassino mudou de endereço. Antigamente, para jogar, era preciso ir até o cassino. Havia distância. Havia horário. Havia algum constrangimento. Agora, o cassino mora no bolso. Não exige terno. Não exige viagem. Não exige sequer sair de casa. Basta o celular.
O apostador moderno pode apostar no ônibus, no almoço, na cama, na reunião de trabalho ou enquanto finge ouvir a esposa. E existe uma diferença brutal entre o velho cassino e o novo. O velho cassino esperava você chegar. O novo te chama o tempo todo, com a mensagem: “Tem jogo começando.” É quase um chamado de amigo: “Tem jogo, vamos?”
As plataformas funcionam 24 horas, oferecem apostas em tempo real, notificações, bônus e recompensas. O próprio Ministério da Saúde chama atenção para esses mecanismos, que podem estimular a permanência e a repetição entre usuários vulneráveis. Serviços e Informações do Brasil
O cassino, finalmente, conseguiu realizar o sonho do varejo: não esperar o cliente procurar o produto. O produto procura o cliente.
[segue]
Marco Túlio da Silva é Auditor Fiscal e ex-presidente do SINDIFISCO-MG. Bacharel em Direito, economista, especialista em Direito Tributário, especialista em Inovação, mestre em Administração Pública.
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Um comentário em “O país que apostou até a água ferver e virar ludopatia”