
O professor da Unicamp Fernando Nogueira da Costa simula um debate entre dois livros acostados na biblioteca da Escola de Economia e Finanças, um muito usado pelos bancos centrais e outro mais afeito ao investimento produtivo.
De um lado, o Manual Ortodoxo, de capa dura, letras douradas e inúmeras reedições internacionais. Gostava de repetir:
— Se tantos Bancos Centrais me consultam, alguma razão há para isso.
Do outro lado, repousava a Cartilha Heterodoxa, de capa simples, margens cheias de anotações e páginas constantemente revisitadas por estudantes críticos.
Certa noite, os dois voltaram a discutir.
O Manual começou:
— Cara Cartilha, você passa a vida criticando minhas ideias, mas nunca apresenta uma teoria completa para substituí-las. Eu explico por qual razão os juros são altos: simplesmente, por excesso de demanda, gasto público acima do crescimento da renda, baixa poupança por conta do consumismo e instituições fiscais não austeras. Como os canais de transmissão da política monetária funcionam mal, devido ao subsídio no crédito direcionado por bancos públicos e à ausência de marcação-a-mercado em títulos de dívida pública com juros pós-fixados, o Banco Central do Brasil, coitado, precisa suar muito ao fixar a Selic para controlar a inflação. É desagradável, mas inevitável.
A Cartilha sorriu.
— Você fala como se a Selic fosse um mecanismo automático diante do gasto público. Esquece ela ser definida, arbitrária e discricionariamente, por um Comitê de Política Monetária, formado por pessoas de carne e osso. Não nasce da vontade dos produtores do mercado de bens e serviços; nasce de uma decisão institucional, pressionada pelos operadores do mercado financeiro.
O debate prossegue até que surge a inevitável “moral da história”:
“Um manual torna-se dogma quando acredita explicar tudo; uma cartilha torna-se panfleto quando acredita dispensar toda crítica. A Ciência Econômica avança quando ambos aceitam, diante de sistemas complexos, nenhuma teoria ser capaz de enxergar sozinha toda a paisagem em movimento.”
Entenda como o economista chegou a esse veredito:
