Brasil, 40 anos: regressão cultural e política

Assista na íntegra: regressão cultural

A Fundação Maurício Grabois organizou um seminário em quatro episódios sobre a tese de doutoramento na Economia da Unicamp de Marília Tunes, intitulada Brasil: um país sem destino? , com o objetivo de subsidiar a atualização do programa partidário do PCdoB.

Os dez capítulos da obra agrupam-se em três partes, tratando sobre a regressão brasileira no campo da economia, da sociedade e da cultura e política, cada qual objeto de apresentação e debate em uma sessão. O último painel versa sobre a sociedade fraturada no Brasil.

Coube ao ex-presidente da Ancine, Manoel Rangel, conduzir os trabalhos da noite, sobre os capítulos 6 a 10 da tese em debate, relativos à regressão em 40 anos da cultura e da política brasileiras.

O doutro em Direito André Tokarski estabeleceu que a forte regressão observada nas últimas quatro décadas – renda concentrada, massa empobrecida e uns poucos superricos – sucedeu ao período nacional-desenvolvimentista da sociedade brasileira. A desestruturação dos serviços públicos e da indústria, modo de produção necessariamente coletivo, foram marcas do período.

A cultura brasileira, que contou com Escolas de Samba, futebol e o Centro Popular de Cultura da UNE, recebeu importante aporte público na construção da identidade nacional nos tempos da industrialização e urbanização do país. Mas a supressão dos direitos civis e políticos após 1964 e a repressão à luta pelos direitos sociais, agravada pela opção neoliberal subalterna a que o Brasil está submetido, resultaram em uma sociedade fraturada, campeã em violência doméstica e número de presídios, mas que a maioria não tem casa adequada, lazer e segurança.

O Secretário de Movimentos Sociais do PCdoB concluiu que o quadro de desagregação cultural que vive o Brasil demanda um projeto nacional, como caminho para a revolução brasileira.

A seu turno, o filósofo Cristiano Capovilla expôs como a Revolução de 1930 enfrentou, vitoriosamente, a cultura colonialista da República Velha, que dizia ser o problema do Brasil o clima e o brasileiro. 1964 manteve a política desenvolvimentista mas perdeu apelo popular, como as reformas de base. Adiante derrotados de 30 voltaram como financistas.

O capital fictício ganhou com a tecnologia não só velocidade de circulação especulativa transnacional, mas também apoio da mídia e dos algoritmos de redes sociais e comércio, que favoreceram a dominação dos poderes locais e o domínio direto das pessoas.

Mesmo assim o maranhense mostra-se animado com as necessárias transformações estruturais do Brasil, pois mesmo sob bombardeamento cultural estrangeiro, o povo ouve a música brasileira. Quem conquistou as eleições diretas e derrotou Bolsonaro e sua tentativa de golpe, tem condições de avançar com as mudanças.

O primeiro comentarista foi o ex-deputado constituinte Aldo Arantes. Ele vê uma consolidação das conservadoras ideias de livre mercado, sem interferência do Estado na economia. Crítico tanto do comunismo como da social-democracia, o neoliberalismo aproveita a rede social para enfrentar a causa que a CIA apontou para o crescimento da América Latina – a força da esquerda nas universidades. A partir de Olavo de Carvalho a comunicação protofascista troca as questões sociais por morais, e se serve de notícias falsas travestidas de verdadeiras para substituir, por exemplo, a escola pública por outra militarizada. É preciso mais que ensinar a escrever, a sala de aula deve mostrar a causa da pobreza e propiciar ampla mobilização social.

A historiadora Madalena Guasco focou sua exposição na luta de ideias. Mudanças na classe dominante são acompanhadas por alterações ideológicas e culturais. A Inteligência Artificial não só favorece a disseminação do quadro, como também propicia novas formas de exploração do trabalho. A criação de uma decivilização.

A propaganda neoliberal traz uma impressão falsa de inclusão e o identitarismo acaba por substituir a luta de classe contra a exploração. Quando substitui os movimentos sociais na luta pela transformação da sociedade, ao trabalhador só pode trazer desilusão;

O jornalista Fábio Palácio preconizou que a cultura brasileira vive sob permanente tensão entre o nacional e o universal. Antes mesmo da República, a Nação já estava tomando forma, e obras como as de Aleijadinho já preconizavam a revolução que estava por vir. O professor maranhense explicou que a rede mundial de computadores é um espaço de comunicação, em que empresas lucram tanto com a informação como com a desinformação. Para sintetizar as três revoluções necessárias – industria, democrática e cultural -, resgatou um antigo pensamento de Raymond Williams:

Com o tempo, as pressões e os limites do sistema econômico, político e cultural vaõ surgir para a maioria de nós cada vez mais apenas como as pressões e os limites da experiência simples e do senso comum.

À sequência veio à tela a doutora Luana Bonone, para defender a comunicação no centro do projeto nacional, com soberania digital, com governança e indústria próprias. Valorizando a epistemologia, lembrou que o impacto negativo de 64 sobre a cultura nacional encontrou resistência, por exemplo, na chanchada e no teatro do oprimido. Conclui propondo enfrentamento ao império das finanças sobre os meios de comunicação e a influência excessiva de algoritmos privados sobre a esfera pública.

A gestora da internet no Brasil, doutora Renata Mielli, enfatizou a importância do controle dos fluxos informacionais, já que as plataformas anulam coisas e pessoas, reduzindo tudo a dados e apresentando conteúdos de caráter emocional e moral – a chamada decivilização. A Secretária de Comunicação do PCdoB expôs a importância de se conhecer o mecanismo alienante e intangível de exploração de indivíduos que, quanto mais trabalham, mais pobres ficam, para superar o capitalismo.

Concluiu os debates o diretor da Hora do Povo e vice-presidente do PCdoB Carlos Lopes. Para o psiquiatra, é “preciso de um projeto nacional de desenvolvimento para a cultura florescer”. Ele historiou que o modelo paulista de 1922 privilegiu o estético, enquanto a revolução de 30 mostrava o social na cultura, como o fazia Machado de Assis.

A regressão começou já com Juscelino, que trouxe empresas estrangeiras para montar automóveis, Como o Estado deixou de ser nacional em 1964, a cultura foi esmagada pela invasão estrangeira.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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