
Weslley Cantelmo
A história não registra casos de desenvolvimento sem que riscos fossem corridos.
A economia, não somente importa, como é o núcleo da disputa.
- Não existiu, no mundo, processo de industrialização sem ação alavancadora (grana) estatal.
- Não existiu, no mundo, desenvolvimento tecnológico sem o dueto pesquisa de base e geração de demanda para produto inovador, que são respectivamente financiada pelo Estado e o objeto de compras públicas estatais.
- Não existiu, no mundo, produção e oferta de infraestruturas, urbanas e logísticas, sem algum arranjo que envolvesse algum mecanismo de política fiscal.
- Não existiu, no mundo, qualquer melhoria de qualidade de vida de pessoas que não fosse expressão de conquistas de classes que se materializaram por meio da ação estatal na economia.
[…]
Não vou listar o conjunto amplo de medidas adotadas, macro e microeconômicas, que configuram a ordem estrutural/institucional neoliberal. Podemos, contudo, sintetizá-las no mofado e persistente tripé macroeconômico: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit fiscal. A isso se somam seus desdobramentos – como o conjunto histórico de restrições fiscais, incluindo o Arcabouço Fiscal proposto pelo Governo, e as liberações de fluxos cambiais –, que retiram do Estado a sua capacidade de realização.
Uma vez que o núcleo está determinado, o que o governo tem feito é uma gestão de arrumação, de melhorias não estruturais, uma luta com as armas que se tem. Obviamente, o governo Lula, e a sociedade brasileira que o elegeu, precisa lidar com a realidade tal como ela é. Impõe-se, então, um problema de algumas faces e possibilidades.
A primeira seria trabalhar em condições de melhoria paulatina, com vistas ao acúmulo de forças, que parece ter sido a escolha do governo. Nessa condição, no entanto, temos limitações impostas pela reduzida capacidade de realização do Estado (sobretudo na sua expressão executiva), que tende a se agudizar, em função das regras fiscais restritivas e da divisão de protagonismo com o Congresso, recheado de emendas parlamentares, que são expressão significativa do orçamento de investimento do Estado brasileiro. Além, é claro, dos apertos monetários (política monetária que, aliás, é realizada por um grupo diminuto, representante do capital financeiro).
[…]
Outro caminho possível seria o de maior enfrentamento e acionamento de base popular. Algo do tipo “pagar para ver”, que, obviamente, precisa ter método. Claro que existem muitas e muitas possibilidades entre os caminhos e as costuras políticas. Acordos, recuos e avanços devem ser balanceados sem que se perca a noção do norte a ser seguido, que é a busca pelo desenvolvimento.
A correlação de forças molda a tática, mas a estratégia deve estar estampada também no cotidiano. É preciso agir na conjuntura mirando a estrutura. Esse me parece um caminho inevitável se quisermos avançar em alguma direção.
A história do Brasil mostra que a classe no controle é insaciável, tosca e violenta – claro, essa constatação também serve para desencorajar projetos mais ousados. Nesse sentido, não cabem visões – inocentes ou cínicas – de que um governo não deve ser mobilizador. Ao contrário, é condição sine qua non, enquanto temos essa possibilidade. É arriscado? A história não registra casos de desenvolvimento sem que riscos fossem corridos.
O mundo é perigoso e o Brasil também.
Para o artigo completo no portal da Fundação Maurício Grabois:
Weslley Cantelmo é doutor em Economia (UFMG).

Um comentário em “O Governo Lula diante da estrutura limitadora do Estado”