Ethos santista

Thiago Andrade

Santos completa seus 479 anos, celebrados em 26 de janeiro, com uma história que reflete abertura, trabalho e inovação.

Desde sua fundação, a localização estratégica entre o mar e a serra transformou a cidade em um polo de trocas econômicas e culturais, um ponto de encontro de ideias e movimentos que moldaram sua identidade singular. O ethos santista é uma síntese de liberdade, criatividade e compromisso com a construção de uma sociedade democrática e plural.

A cidade é berço de visionários como José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, que simboliza o espírito transformador de Santos. Na cultura, artistas como Patrícia Galvão, a Pagu, e Plínio Marcos mostram como os santistas sempre estiveram na vanguarda da crítica social e da expressão artística, provocando reflexões profundas e necessárias sobre o Brasil.

A inovação de Santos se destaca também no urbanismo e no saneamento básico. No início do século XX, Saturnino de Brito idealizou os canais da cidade, revolucionando a engenharia sanitária no Brasil. Sua visão não apenas enfrentou problemas graves de saúde pública, como também transformou Santos em referência de planejamento urbano, refletindo o compromisso com a qualidade de vida de seus moradores.

Santos é, acima de tudo, feita de sua gente: trabalhadora, criativa e solidária. O santista encara as dificuldades com um jeito único, uma boa malandragem que mistura jogo de cintura e resiliência. Da ZN a Ponta da Praia, do Porto a Área Continental, na força dos artistas de rua e escolas de samba, a cidade pulsa com uma riqueza cultural e humana inigualável. Exemplos como o portuário Osvaldo Pacheco, que venceu barreiras para se tornar deputado constituinte, mostram como a convivência comunitária e a luta coletiva podem transformar vidas.

No entanto, o brilho da cidade contrasta com desafios sociais que persistem. A desigualdade é visível e latente, refletida na coexistência de áreas nobres e bolsões de pobreza. Enfrentar essas diferenças é um compromisso urgente, que exige políticas públicas inclusivas e um olhar atento para a garantia de direitos.

Santos também é reconhecida por seu pioneirismo na saúde mental. A intervenção na Casa de Saúde Anchieta, em 1989, marcou o início de uma política antimanicomial que influenciou todo o país. A criação dos Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS) e a implantação de policlínicas reforçam o compromisso histórico da cidade com a dignidade humana e a inclusão social.

A história de Santos é marcada por uma resistência democrática que se traduz em um compromisso contínuo com a justiça social. Durante períodos autoritários, como o Estado Novo e a ditadura militar de 1964, a cidade foi palco de movimentos sindicais e estudantis que lutaram pela liberdade. Esse legado de resistência se reflete na busca por equidade e na defesa dos direitos humanos.

Essa tradição democrática permanece viva e mobilizada. Nas eleições de 2024, Santos demonstrou claramente que não permitirá o avanço do fascismo ou qualquer flerte com o autoritarismo, reafirmando seu compromisso com os valores democráticos e a civilidade na construção política. Ao longo de quase cinco séculos, Santos consolidou-se como um símbolo de acolhimento, diversidade e inovação. Celebrar seus 479 anos é honrar uma cidade que valoriza suas raízes e enfrenta o futuro com coragem.

Thiago Andrade, dirigente estadual do PCdoB, é filho da Ilha Encantanda e a ela ofereceu o programa Uma só Santos.

Esta publicação é uma homenagem ao aniversário da cidade que escolhemos para a nossa aposentadoria. Outras homenagens: a chegada dos imigrantes ao Brasil e Santos 474.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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