Dados econômicos do Brasil são confiáveis

Ricardo Barboza

Manipular dados oficiais é uma prática grave, que deixa rastros claros – e não há qualquer indício de que isso esteja ocorrendo no Brasil de hoje

Uma desconfiança infundada ronda o debate econômico no Brasil, especialmente entre quem não é especialista, mas acompanha o tema. Sempre que o IBGE divulga dados oficiais, uma parcela da população questiona sua veracidade. Alegam que os números não refletem o mundo real, acusando-os de serem maquiados para favorecer o governo. Essas suspeitas, amplificadas nas redes sociais, não fazem sentido – e é fácil demonstrar porque estão erradas.

O Brasil é privilegiado por contar com uma ampla rede de instituições que produzem dados econômicos. Esses órgãos, públicos e privados, utilizam metodologias transparentes e similares. É comum que diferentes pesquisas analisem as mesmas variáveis, o que permite comparar resultados e verificar a consistência das informações. Essa robustez dá credibilidade às nossas estatísticas.

É verdade que há exemplos históricos de manipulação de dados econômicos. Durante a ditadura militar no Brasil, a inflação foi distorcida para ocultar problemas econômicos. Na Argentina, na década de 2000, também houve intervenção nos números oficiais, comprometendo a confiança nas estatísticas do país. Esses episódios alimentam a ideia de que manipular dados é algo possível em qualquer lugar. Mas é crucial separar o que é possível do que realmente acontece. Manipular dados oficiais é uma prática grave, que deixa rastros claros – e não há qualquer indício de que isso esteja ocorrendo no Brasil de hoje.

A persistência dessa desconfiança pode estar ligada ao ambiente polarizado em que vivemos. Em um cenário onde cada lado do espectro político se isola em bolhas de informações, dados e narrativas que agradam a essas torcidas ganham força, mesmo quando carecem de embasamento. A desinformação, nesses casos, serve mais para reforçar divisões do que para buscar a verdade.

Tomemos como exemplo a inflação. O IBGE calcula mensalmente o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse índice mede o custo de vida de famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos em 16 regiões do país. É uma média nacional (ponderada), e é natural que a inflação percebida por cada brasileiro possa ser diferente, já que as pessoas consomem produtos e serviços distintos. Porém, isso não significa que o dado oficial esteja errado. Significa tão somente que ele reflete o comportamento médio dos preços, e não a realidade individual de cada um.

O IPCA acumulou alta de 4,8% em 2024. Outros índices, calculados por instituições renomadas, corroboram a veracidade desse número – e, mais importante, mostram variações até mesmo menores, e não maiores, que o índice oficial. O IPC-DI, da FGV, por exemplo, subiu 4,0% no mesmo período (diga-se de passagem, desde 2021 o índice da FGV tem corrido cerca de 1 p.p. abaixo do IPCA). Já o IPC, da FIPE (ligada à USP),

outro indicador respeitado, registra alta de 4,7%, também próxima e ligeiramente abaixo do IPCA. Ou seja, os números confirmam que o dado oficial do IBGE está alinhado a outras medições confiáveis.

Passemos ao PIB, outro indicador central da economia. O IBGE calcula trimestralmente o Produto Interno Bruto, que é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos no país. Nos últimos anos, o desempenho do PIB brasileiro tem superado as expectativas dos economistas. Mas isso não significa que os números estejam artificialmente inflados. Na verdade, significa que nós, economistas, ainda enfrentamos dificuldades em prever com precisão o comportamento da economia, e devemos ser mais humildes em reconhecer isso.

Além do PIB do IBGE, existem outras medições de atividade econômica, como o IBC-Br, calculado pelo Banco Central, e o Monitor do PIB, produzido pela FGV. Essas instituições utilizam metodologias diferentes, mas os resultados são muito parecidos. Desde o último trimestre de 2022 e até o 3º de 2024, o PIB cresceu 6,0%, o IBC-Br registrou alta de

6,9% e o Monitor da FGV, +5,8%. Essa convergência de dados reforça a confiabilidade das informações oficiais.

Para finalizar, um exemplo mais recente. O IBGE divulgou no final do ano passado que as taxas de pobreza e extrema pobreza no Brasil atingiram os menores níveis da série histórica. Algumas vozes críticas nas redes sociais questionaram esses números. No entanto, o dado do IBGE coincide com o cálculo realizado pelo Instituto Jones dos Santos Neves, ligado ao governo do Espírito Santo, que já havia divulgado o mesmo resultado no início do ano.

A economia brasileira vive um momento inegavelmente positivo. O crescimento econômico tem superado amplamente as expectativas, enquanto o desemprego atinge o nível mais baixo da nossa história. A taxa de desconforto econômico – que combina inflação e desemprego – está no menor patamar já registrado. Além disso, a pobreza nunca foi tão baixa no Brasil. Debater a sustentabilidade desses avanços no futuro é legítimo e necessário, mas negar os resultados do presente com base em possibilidades incertas ou na deslegitimação das estatísticas é improdutivo e não contribui para um debate público sério.

É evidente que o país enfrenta desafios em diversas frentes – econômicas, sociais e ambientais. Contudo, gastar energia com acusações infundadas não ajuda a avançar. Precisamos focar nos problemas reais e nas soluções concretas. Por isso, da próxima vez que alguém questionar os dados oficiais sem qualquer evidência sólida, ofereça este texto como resposta. O compromisso com a verdade é essencial para construirmos um futuro mais justo e próspero.

Ricardo Barboza é pesquisador associado da FGV IBRE, professor do IBMEC e mestre pela PUC-Rio. Bráulio Borges é pesquisador associado da FGV IBRE, economista-sênior da LCA 4intelligence e membro consultivo do Instituto Clima e Sociedade.

Publicado originalmente em Cidadania&Cultura.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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