A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil foi palco de mais um seminário sobre a reindustrialização do país, visando construir a nova política industrial brasileira, a serviço do desenvolvimento.
O editor especial da Hora do Povo, Carlos Pereira, abriu os trabalhos apresentando o problema: por cinquenta anos, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo, a taxas de 7% anuais. Dessa forma, em 1980 tinha um PIB maior que o chinês, composto em 30% pela atividade industrial. Hoje, sob juros básicos de 10,5%, a indústria representa menos de 10% do PIB e a economia brasileira é uma fração da chinesa, oprimido que se encontra pelo capital internacional.

O presidente da CTB, Adilson Araújo, procedeu à abertura do seminário. Representando os mais de 1400 filiados à Central, defendeu um novo projeto nacional de desenvolvimento, que torne o Brasil mais competitivo, com ampliação da oferta de crédito e juros baixos.
Em rápida conta, mostrou que o agronegócio tem recebido quase quatro vezes mais investimentos que a indústria e o Banco Central autônomo tem impedido a retomada do setor com seus juros elevados. Entre as necessidades do desenvolvimento sustentável que quer para o país, destacou a indústria de saúde, naval e energética.

Expositor da tarde, o diretor da Confederação Nacional da Indústria, Rafael Lucchesi, historiou o surgimento do capitalismo tardio no Brasil, um país essencialmente rural até a Revolução de 1930, quando deu passo à industrialização, iniciada décadas antes na Europa.
O industrial mostrou o avanço brasileiro à condição de 6ª economia no mundo, com perspectiva de nova alta, fruto da aliança da nascente burguesia com a tecnocracia desenvolvimentista estatal. Adveio o consenso de Washington e a abertura do mercado interno, privatizações, política cambial favorável ao mercado externo e proteção ao investidor estrangeiro inverteram a mão do movimento.
O Estado brasileiro deixou de impulsionar o desenvolvimento, como era de sua tradição histórica, trocando o planejamento pela mera gestão orçamentária anual, submentendo a economia ao rentismo e perdendo densidade e complexidade produtiva. Diferentemente do estrangeiro, que protege as suas empresas, muitos setores nacionais foram desmontados ou simplesmente fechados.
As oportunidades, destacou o industrial, estão aí: o uso da biotecnologia e a inteligência artificial podem ser ferramentas para o Brasil se reinserir nas cadeias produtivas mais dinâmicas do globo. Em tempo de empobrecimento das novas gerações, a indústria, que emprega sete vezes mais que o agro, mesmo faturando bem menos, e paga melhor pelo trabalho que a área rural, parece ser o caminho em um país farto de energia limpa e barata. Só é preciso querer, concluiu Lucchesi.

O primeiro debatedor foi o representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria José Reginaldo, que entende desequilibrada a relação entre o capital e trabalho no Brasil, em favor do primeiro.
As reformas trabalhista e previdenciária não melhoraram as relações sociais, nem sequer favoreceram a geração, ou mesmo a manutenção, de empregos, esclareceu. Defendendo a humanização das relações do trabalho e sua soberania como sendo nacional, Reginaldo sugeriu ao empresariado livrar-se dos resquícios do escravismo de outrora e da submissão ao rentismo, para caminhar a um pacto entre iguais e criar um novo ambiente de trabalho no Brasil.

Também opinou Assis Melo, da Federação Interestadual dos Trabalhadores Metalúrgicos, para quem a finanlidade do desenvolvimento das forças produtivas no Brasil é gerar empregos e distribuir renda.
Diante de salários defasados em pelo menos uma década, o dirigente espera que o pacto em discussão considere também a jornada laboral e demais condições trabalhistas nas conversas. Ele lembrou que a energia privatizada tem encarecido a produção e o consumo doméstico dos trabalhadores, mesmo risco que ocorre diante da água e saneamento, clamando pela atuação do Estado nessas questões e na sua própria reconstrução.
Três outros dirigentes sindicais apresentaram seus comentários:

O líder dos trabalhadores da alimentação reafirmou seu compromisso com o diálogo em busca do desenvolvimento sustentável, que deve prever melhores condições de vida para os trabalhadores, inclusive a redução da jornada de trabalho, em razão da introdução de novas tecnologias produtivas. Lembrou que a manutenção dos empregos dependem das vendas da indústria, não da desoneração da folha, pelo que é preciso incrementar a renda de quem trabalha.

Bira convidou todos a participarem das audiência públicas no Congresso Nacional, para acompanhar as discussões sobre a Nova Indústria Brasil. Expressando gratidão ao legado de Vargas, conclamou à luta contra a sangria dos juros, que conta com R$ 1,7 trilhão no orçamento corrente para alimentar o rentismo. Afinal, “quem fez a Revolução de 30 não pode ter medo” de enfrentar o capital financeiro internacional e barrar o fascismo e fazer a “Revolução de 2024”. Para isso, a união de todos os que defendem a Pátria.

Em mensagem da Suiça, onde se encontra em missão na Organização Internacional do Trabalho, o líder dos marítimos destacou o papel da Petrobras como indutora do desenvolvimento, explicando que nos primeiros governos de Lula e Dilma 80 mil empregos foram gerados com as encomendas de navios pela empresa, responsável pelo maior fluxo de navegação nas costas brasileiras. Hoje, a frota de 100 embarcações é fabricada fora do país e batizada com bandeiras estrangeiras, submissão que deve ser rompida na retomada da indústria naval.
Como conclusão, Adilson Araújo lembrou que o pato que a sociedade pagou pela adoção do neoliberalismo no Brasil recaiu também sobre a indústria. Retomar a Eletrobras, potencializar a Petrobras para criar cadeias produtivas com tecnologia, engenharia e conteúdo nacionais é o centro da batalha ideológica pelo nacional-desenvolvimentismo frisou.
Após o comprometimento dos servidores públicos com a retomada da indústria, os trabalhos, mediados pela veterana operária gráfica Maria Pimentel, foram concluídos com a leitura da primeira versão da carta conjunta da CNI e da CTB, em busca da retomada da indústria.


5 comentários em “Retomar a indústria para o Brasil voltar a crescer”