Elder Vieira, 30 de dezembro de 2022
1. Da Democracia Quero prenhe de povo meu ventre, feito bage, rio fuviando de peixe. Feito luz do sol por trás da noite quente, e fábrica, grávida de greve e de gente. Feito o riso de meu povo por entre cerrados dentes, feito a esperança, de novo, no peito de cada ente, latente. 2. Do Salário Quero o salário e o pão que todo ele sustenta e os dias que ele compra e a compra que ele almeja. Quero o preço amarrado a ele e a certeza das casas e gizes e risos que ele aumenta. 3. Da Dívida Quero não pagar o preço de ser escravo. Quero o rasgo nos contratos, fim de prazos e acordos, fim de minha Pátria profanada e da dança sobre seus despojos. 4. Do Latifúndio Não quero sobre meu peito acometido de alegria tanta e tanta euforia destes braços desperdiçados a dor e a agonia. Quero a fórmula da justa alquimia de ver divididas e plantadas essas sesmarias. 5. Das Estatais Jantam os cães em nossas mesas e devoram os ratos nossos parques de aço e hortaliças minerais. Arrombam nossos bolsos e cofres e brincam nossos carnavais. De frente pro crime, sigo em frente na punição dos injustos, e na eliminação dos abusos em nossos paços, usinas, canaviais. 6. Da Especulação Especulam em nossos quintais com nossos olhos de fome. Vendem nossas mães negociam nossos filhos e pratos e plantam nossas pratas em seus jardins de delitos. Olho tudo e não me aflijo: Corto a mão parasitária e seus ritos. 7. Do Capital Estrangeiro Por entre corporações, escreverei meu nome, e sob rédeas trarei estranhos sobrenomes. Não mais a fuga do suor de nosso esforço; não mais a asfixia de nossos pássaros e moços; não mais a liberdade de aplastar nossos cérebros e sonhos. ulas e documentos para lamentação futura. Eu te faço nossa e guerra que se trava na verdura. Eu te pinto índia e te faço bandeira, te domo as picadas e te alcanço inteira. Te faço fera Amazônia brasileira.
8. Dos Militares Aos cães que apodrecem nossas praças, meu mandamento: Não mais balas alojadas em peitos auriverdes, feitos de carne e trabalho. Não mais patas de cavalos a fabricarem crimes legais. Olhos postos nas linhas fronteiriças; obediência ao povo que meu ventre habita; e a mancha verde-oliva, nunca mais. 9. Da Amazônia Alienaram teus segredos e descobriram tua pele pra te fazerem pó. Desmataram teu povo e suas aldeias, e carbonizaram tuas raízes e seus reinos entranhados. Fizeram-te luxos e nobrezas, bolsas e finezas, películas e documentos para lamentação futura. Eu te faço nossa e guerra que se trava na verdura. Eu te pinto índia e te faço bandeira, te domo as picadas e te alcanço inteira. Te faço fera Amazônia brasileira. 10. Da Energia Quero meus olhos povoados de energia, meus braços eletrizados, minhas pernas radiativas. Quero o domínio da luz e do átomo a magia de reproduzir, a cada hora, nova promessa de vida. 11. Das Cidades Desses chãos urbanos, quero a pétrea morada da alegria e o coletivo transporte da liberdade nas artérias avenidas. 12. Da Soberania Soberana em suas decisões, a Nação descansa em trono esplêndido. Abraça a irmandade dos povos e suas lutas pela determinação de seus próprios ritos. Não mais profanação, não mais despedaçada: Apenas Nação soberana, e mais nada. 13. Dos Trabalhadores Dos tantos mil braços que povoam minha carne, brota à flor os laços que tecem minha pele. Eu, inacabada, forte e nua, distribuída para tantas elas e tantos eles, serei todas e serei una, serei marchas invadindo, torrentes, as ruas. Serei parte duma luta acesa que sempre continua.

