Histórias da caserna: os dois capitães que “faltaram com a verdade e macularam a dignidade militar”.

Imagem: reprodução do Brasil247

O “Noticiário do Exército”, veículo oficial da Arma, em fevereiro de 1988 publicou um editorial de capa intitulado “A verdade: um símbolo da honra militar”. Quem conta a história é Carlos Russo Jr, no Espaço Literário Marcel Proust*.

O material que circulou dentre toda oficialidade da arma e foi mesmo lido em algumas ordens do dia, e dizia que dois capitães, sendo um deles Bolsonaro “faltaram com a verdade e macularam a dignidade militar”.

Os “Conselhos de Justificação Militares” haviam investigado os dois militares, depois que a revista Veja divulgara, em outubro de 1987, reportagem sobre um suposto plano de Bolsonaro para, em atos terrorista, explodir bombas em unidades militares. De acordo com a revista, a ideia de Bolsonaro era protestar contra os baixos salários dos militares e, assim, “prejudicar o comando do então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves”.

Em decorrência, o “Noticiário do Exército” afirmou:

O fato e tais circunstâncias tornaram os oficiais passíveis de serem considerados impedidos de continuar a pertencer aos quadros de nosso Exército, se assim forem julgados pelo STM. O Exército tem, tradicionalmente, utilizado todos os meios legais para extirpar de suas fileiras aqueles que, deliberada e comprovadamente, desmerecem a honra militar. A verdade é um símbolo da honra militar.

Tornaram-se assim, estranhos ao meio em que vivem e sujeitos tanto à rejeição de seus pares como a serem considerados indignos para a carreira das armas. Na guerra, já plena de adversidades, não se pode admitir a desonra e a deslealdade que não do lado inimigo, jamais do lado amigo.

É muito conhecida a frase do ex-ditador general Ernesto Geisel, que chamou Bolsonaro de “um mau militar”. O documento de 1988, no entanto, é mais representativo do pensamento da cúpula do Exército da época por tratar de um Bolsonaro ainda na ativa no Exército, enquanto a fala de Geisel é posterior, de 1993, quando Bolsonaro já havia sido vereador do Rio (1989-1991) e estava no primeiro mandato como deputado federal.

O professor Carlos Fico, pesquisador da UFRJ, especializado na temática da ditadura militar e autor de “Como eles agiam”, disse que na época da publicação do editorial o ministro Leônidas estava muito irritado com Bolsonaro porque, a princípio, o capitão havia negado qualquer envolvimento com os fatos descritos por Veja. O ministro chegou a dar uma entrevista criticando a revista e dizendo que “conheço a minha gente”.

A investigação posterior do Exército, contudo, desmentiu a manifestação de inocência de Bolsonaro, segundo concluiu Leônidas. Em 26 de fevereiro de 1988, um dia depois do editorial no “Noticiário”, Leônidas reconheceu, numa entrevista à imprensa no Rio que foi reproduzida pelos jornais no dia seguinte, que “a Veja estava certa e o ministro estava errado”.

“O editorial provavelmente expressa essa irritação de Leônidas, até pelas expressões fortes contra Bolsonaro (‘desmerece a honra militar’, ‘faltou com a verdade e maculou a dignidade militar’). O capitão passou a ser visto como um mau militar, afirmou Fico. “O destaque em editorial na primeira página certamente decorreu da necessidade de enfatizar a condenação de Bolsonaro pelo ministro. O boletim circulava amplamente, não só no Exército, mas nas outras forças também. ” (+266 palavras, ELMP)

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, conselheiro da Casa do Povo, EngD, CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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