O fantasma de Paquetá

Ilustração da Cartilha (Araújo)

Quando o século 20 já despontava no horizonte santista, uma lenda tomou conta da cidade: o fantasma de Paquetá. O Novo Milênio trouxe a versão de Olavo Rodrigues, em sua Cartilha da História de Santos (1980).

Julho de 1900. Afirmava-se que havia um fantasma no portão do Cemitério do Paquetá, na Rua Dr. Cócrane. Surgia à meia-noite, rondava o local por espaço de meia hora e retirava-se a passos lentos pela Rua Bittencourt. Era mulher, ora trajada de preto, ora de branco. Vinha pelos lados da Rua S. Francisco, quedava-se diante do portão do campo santo, acenava com lenço branco para seu interior e colocava a peça retangular de tecido aos olhos por baixo do véu que lhe cobria a cabeça, como a enxugar uma lágrima.

Foi o grande assunto. Boa parte dos que haviam afluído às imediações do Cemitério do Paquetá jurava de pés juntos haver visto o fantasma, enquanto outras pessoas atribuíam o fato à imaginação, cisma ou superstição. Certo é que as queixas aumentavam na repartição policial, cujo chefe, major Evangelista de Almeida, decidiu dar caça ao fantasma, ordenando que um pelotão de praças da Cavalaria permanecesse durante toda a noite diante do portão do Cemitério, onde o povo acorreu com curiosidade para apreciar o inusitado espetáculo de a Polícia prender uma alma-do-outro-mundo. Nessa noite, porém, o fantasma não se dignou a aparecer.

Em compensação, os cavalarianos deram show à parte, dispersando brutalmente o povo, agredindo-o a chicote e a espada. O jornal A Tribuna, em sua edição de 28 de julho de 1900, ou no dia imediato, lançou enérgica nota de protesto contra tal ato de selvageria da Polícia. Ninguém mais quis ir às imediações do Cemitério do Paquetá, temendo novos golpes de violência dos cavalarianos.

E o fantasma também deu o sumiço…

Cidade de Santos, 1900
Francisco Carballa, 2007

O Novo Milênio traz também várias versões artísticas da lenda e inclusive um interessante glossário de termos fantasmagóricos.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

Um comentário em “O fantasma de Paquetá

  1. Todos nós temos nossos fantasmas, alguns escondidos outros escancarados. É uma questão de enfrentá-los!
    Quanto a violência policial ele está enraizada na nossa sociedade.
    E nosso dever denunciá-la e combatê-la!

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