O antissemitismo no contexto brasileiro atual

O Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil convidou dois professores de universidades israelenses para avaliar os riscos de ampliação da onda antissemita no Brasil, expressa no encontro presidencial com representante do partido nazista alemão e os atentados contra sinagogas no Rio e em Ribeirão Preto.

Com apresentação e mediação de Lucia Chermont e Natanael Braia, do OJDHB, conversaram com os internautas o pesquisador da Universidade Ben Gurion e professor titular do núcleo de estudos judaicos da UFRJ, Michel Gherman, e o historiador por Haifa e Londres Bernardo Sorj.

Os apresentadores foram claros: lembrando Celso Lafer, só existe uma raça, a humana, de modo que o antissemitismo é uma forma de racismo. Quando o próprio governo federal mistura o uso da bandeira de Israel com símbolos nazistas, não se estranha o sentimento antijudaico ter avançado no Brasil de 19 para 27%, segundo pesquisas apresentadas.

A baixa incidência histórica de antissemitismo no Brasil rendeu-lhe o título de o País do Futuro por Stefan Szweig. No entanto, segundo Gherman, a atual ascensão deve-se à uma mudança na sociedade brasileira, em que a extrema direita faz um resgate do passado, negando a ditadura, escravidão e até o holocausto.

Para serem aceitos em uma sociedade do tipo, alguns judeus abriram mão dos valores judaicos que os formaram, explica o catedrático carioca. Sendo “brancos e bem-sucedidos”, veem inclusive outros judeus de matizes progressistas, reformistas ou conservadores como ameaça ao seu novo status quo e agem contra a convivência pacífica dentro da comunidade. No seu delírio, relevam o encontro do Presidente do Brasil com líderes neonazistas em troca de uma imaginária Israel representada pela bandeira ostentada pelos grupos fascistas de hoje.

Sorj acrescentou que o movimento corrente é de destruição da cultura brasileira, natural para os judeus destas terras, um país com fronteiras pacificadas e homogeneidade cultural, apesar das gritantes desigualdades sociais. O corrente ataque à identidade nacional não teve paralelo sequer na ditadura, completou ele.

Bernardo acredita que há um segmento judaico no Brasil que se alinha automaticamente ao que ocorre em Israel. Assim, parte da motivação aos que embarcaram no bolsonarismo teria vindo da recente guinada à direita do governo de lá.

Ambos condenara o uso de símbolos judaicos para fins de intolerância e, inclusive, excluir outros judeus. A cultura judaica, integrante da cultura brasileira, lembrou Michel, é a cultura do encontro. E a conversão de certos círculos ao credo fascista não isenta a ninguém, nem a si próprios, do antissemitismo baseado também na famosa teoria conspiratória.

Quando faltar um culpado, um objeto de ódio de turno, o brasileiro de origem judaica entra na mira. E já se nota sinagogas explodidas por mero crime de ódio. “É chegado o momento de deixarem essa comunidade ideológica e política e voltarem à comunidade histórica e étnica”, convocaram os debatedores.

Das perguntas, teve destaque a indagação sobre grupos que se diziam “de esquerda” e queimavam bandeiras de Israel. Gherman afirmou que não eram seus companheiros, mas antissemitas; Sorj reafirmou o reconhecimento ao Estado de Israel, que não se confunde com a ocupação de territórios de outros países.

No sentido horário, Lucia, Michel, Braia e Bernardo

Também em setembro de 2021, o OJDHB trouxe oportuno debate sobre a democracia na saúde e o SUS.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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