Tempo de travessia

O dileto filho da Ilha Encantada Thiago Andrade já havia nos legado um projeto de cidade com Uma só Santos. Desta vez a sua generosidade transcende as fronteiras regionais, lembrando que a “mãe de todas as batalhas” é pela vida:

“É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

O genial Fernando Pessoa provoca nossa condição humana a atentar com mais acuidade para aqueles momentos em que a vida pede transformação.

Serve também como apelo às sociedades para que escapemos de armadilhas e possamos cruzar as barreiras momentâneas e vislumbrar novos horizontes.

Exaustos dessa já longa jornada de mais de um ano enfrentando um inimigo invisível e letal, ainda buscamos forças para reinventar nosso cotidiano e manter os laços de afeto com lugares e pessoas queridas.

O pacto social e civilizatório que nos uniu até aqui parece corroído, fraturado. Doente mesmo. É nesse lusco-fusco que irrompem os monstros, como bem analisou o filósofo, jornalista e dirigente político italiano Antônio Gramsci.

É nesse tempo que temos de construir nossa travessia. Nessa batalha entre o velho e o novo, entre a vida e a morte; em meio a escalada da miséria, do desalento e às ameaças a nossa democracia.

A hora é de união em torno da vida, com vacina para todos, de reforço na defesa dos protocolos sanitários, de apoio e estímulo às empresas e aos trabalhadores que se encontram em grandes dificuldades, às famílias que pouco ou nada tem de comida para colocar na mesa.

Não é o momento de o “meu candidato está melhor nas pesquisas”, “o meu é o único com projeto, agora é ele” ou ainda “fechado com fulano até 2022”. Estamos diante da maior crise da história recente do Brasil, talvez a maior de todas na história.

A única maneira de darmos conta de superá-la é aguçando a inteligência coletiva e ir devolvendo à atividade política a proeminência no debate em torno dos grandes temas de interesse nacional. Fórmulas, alianças e saídas de tempos atrás já não servem mais.

Prova inconteste dessa grande transformação que estamos a viver é o que vem se anunciando como fim de um ciclo nefasto que se convencionou chamar de “neoliberalismo”; o investimento público e o retorno do papel do Estado como indutor do desenvolvimento e promotor do bem-estar social parece voltar a cena com força no debate público e nas medidas tomadas por países centrais do capitalismo.

O papel da China e a velocidade das mudanças no mundo do trabalho impuseram ritmo maior a esse declínio.

Essa é a boa nova sobre a qual devemos nos debruçar, sobre qual mundo queremos construir para o pós-pandemia.

Que seja menos desigual e mais justo; oxalá essa premissa embale a construção de um necessário consenso multilateral em torno da vida.

Vamos chegar lá, com responsabilidade e capacidade de pactuação para encontrarmos a convergência necessária para que o principal objetivo seja alcançado: zerar as mortes decorrentes da COVID 19 e garantir que ninguém veja sua família passar fome.

Todas as outras batalhas podem ser adiadas em nome desse objetivo maior.

Unidos, atravessaremos.

O produtor cultural Thiago Andrade é presidente do PCdoB em Santos.

Libelo originalmente publicado n’A Tribuna.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

Um comentário em “Tempo de travessia

  1. Segundo observou uma leitora, “É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” é frase de Fernando Teixeira de Andrade, erroneamente atribuída a Fernando Pessoa.

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