Misticismo ou ciência?

Márcio Aurélio Soares, no Jornal da Orla,

A gripe espanhola no Brasil

Durante a Gripe Espanhola surgiram tratamentos considerados “infalíveis”.

Segundo os cientistas, a espécie humana teria surgido há uns 350 mil anos no leste da África. O Homo sapiens, como ficou sendo chamado o que é o homem moderno de hoje, é o resultado de uma longa evolução biológica e social que se espalhou pelo Mediterrâneo, depois para a Ásia, até alcançar as Américas, o que aconteceu há, aproximadamente, 50 mil anos.


A ciência teve origem na Grécia. Foram os gregos os primeiros a iniciarem as práticas científicas. O que existia antes era o conhecimento de um pequeno número de fatos, que sob um olhar, via de regra, místico, era privilégio de uns poucos. Apesar dos gregos terem o reconhecimento desse mérito, ao proclamarem a liberdade da investigação intelectual, essa ainda era uma ciência especulativa e sem objetividade e que só veio a tomar um sentido prático por conta dos romanos, aí sim, quando o homem começou a compreender as possibilidades de domínio da natureza, da interpretação dos fenômenos naturais , da organização de leis e criação de condições que lhes facilitassem a vida. Tudo passou a acontecer muito rápido, o que fez com se reduzisse o tradicionalismo místico e ampliada a interpretação objetiva dos fenômenos.


Mas foi no início do século XVI com a ciência moderna, é que se conseguiu articular o método de observação e experimentação ao uso de instrumentos técnicos, principalmente com a invenção do microscópio e do telescópio. Era o ápice de uma época que se definiu como o Renascentismo. Era o final do feudalismo e início do capitalismo. Aqui vale um parêntese. Se tiverem a oportunidade, visitem a Itália, a capital renascentista, e conheçam, especialmente, Florença e Pádua. 


Juntando os parágrafos. O homem moderno surge há 50 mil anos e a ciência moderna há uns 500 anos. Se imaginarmos esses 50 mil anos representados em um dia, portanto, em 1440 minutos; à ciência corresponderia 14 minutos e meio, tempo suficiente para duplicar a expectativa de vida de nossa espécie. À ciência e aos cientistas, nossa reverência pelo desenvolvimento tecnológico e pelos ganhos de novos saberes em evolução permanente. 


Em uma dessas viagens, chegando a Paris, deixei as malas no hotel e, rapidamente, andei alguns quarteirões para encontrar o Instituto Pasteur; um prédio majestoso em estilo neoclássico, que é a representação viva da vitória da ciência sobre a doença. Logo à frente, em sua alameda principal, está instalada a escultura de nome “a mordida”: o menino Joseph Meister sendo mordido em 1885 por um cão rábico. Uma homenagem ao primeiro caso de cura da hidrofobia. Sob a liderança de Pasteur, na “cidade luz”, vencemos a raiva, a difteria, o tétano, a tuberculose, a poliomielite, a gripe, a febre amarela e a peste bubônica.


No século passado, no final de setembro de 1918, passageiros desembarcando de um navio britânico vindo de Lisboa, trouxeram a doença que se passou a chamar gripe espanhola (que ao contrário do que pensamos, surgiu na Filadélfia, nos Estados Unidos). De acordo com os historiadores, as autoridades brasileiras da época demoraram a agir: medidas de prevenção e de distanciamento social só foram tomadas quando a pandemia já acometera grande parte da população. Pesquisas da Fiocruz indicam que entre outubro e novembro de 1918, 65% da dos brasileiros contraíram a doença. Só no Rio de Janeiro foram 14 mil óbitos. Dentre as pessoas que adoeceram estava Rodrigues Alves, que chegou a ser eleito do presidente do Brasil mas morreu antes de sua posse. Sem vacina, surgiram os tratamentos considerados “infalíveis” e para nós hoje os mais estranhos possíveis. “Pitadas de tabaco, balas de ervas e tônicos; alfazema queimada ou incenso para “limpar o ar” e, até, a ingestão de sal de quinino, antigo remédio usado para o tratamento da malária, que, sem qualquer comprovação de sua eficácia, sumiu das prateleiras.


Tem-se notícia que, em 1919, uma CPI no Senado foi instaurada por conta dos desmandos presidenciais, mas se passaram pouco mais de cem anos e os recursos, decursos e agravos de instrumentos solicitados por sua defesa ao Tribunal Superior de Justiça ainda não permitiu que os “órgãos colegiados” chegassem a uma conclusão sobre o caso. Mas, apesar das centenas de testemunhas ouvidas e milhares de óbitos documentados os prazos processuais estão correndo e as autoridades afirmam esperar concluí-lo, no máximo, até 2090.


Nota: Este último parágrafo naturalmente, não é verdadeiro; foi uma ironia. Mas os anteriores, acreditem ou não, correspondem aos fatos.

Marcio Aurélio Soares é médico sanitarista e colunista do Jornal da Orla, de Santos, no qual a crônica foi originalmente publicada, em 7.5.2021.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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