Duas juízas “condenam” a meritocracia

Antonia Maria Faleiros é mineira, aprendeu a ler em casa, cortava cana quando criança, trabalhou como doméstica, dormiu em ponto de ônibus, foi Oficial de Justiça e é Juíza de Direito na Bahia.

Fernanda Orsomarzo é de família de classe média branca, estudou em escola particular e “ralou duro” doze horas por dia, sem festas nem feriados, para se tornar Juíza de Direito no Paraná.

Além de integrarem o Poder Judiciário, o que essas duas mulheres têm mais em comum? Uma crítica ao que se denomina “meritocracia”.

Segundo o Toda a Matéria, meritocracia significa “que todo indivíduo é capaz de prosperar somente com suas capacidades sem precisar da ajuda da sociedade, Estado ou família. É um sistema que privilegia as qualidades do indivíduo como a inteligência e a capacidade de trabalho, e não sua origem familiar ou suas relações pessoas”.

Segundo a doutora Fernanda, o conceito não se aplica bem “em um país cuja sociedade é desigual, racista, machista, homofóbica”. Segundo ela:

O discurso embasado na meritocracia desresponsabiliza o Estado e joga nos ombros do indivíduo todo o peso de sua omissão e da falta de políticas públicas. A meritocracia naturaliza a pobreza, encara com normalidade a desigualdade social e produz esquecimento – quem defende essa falácia não se recorda que contou com inúmeros auxílios para chegar onde chegou.

Já para a doutora Antonia, “meritocracia é só uma cortina para encobrir o remorso de quem fecha as portas para os outros. Você fecha as portas e essa pessoa não consegue nada. Então você diz: ‘Não conseguiu porque não tinha mérito’”. E arremata:

Esse discurso liberal de cada um por si é perverso e predatório. É preciso, para se aferir meritocracia, aferir o ponto de partida de cada competidor. Se partiram do mesmo ponto, aí podemos falar sobre isso. Se as condições foram diferentes, pode-se falar em recompensa pela luta, mas não meritocracia.

Muito antes do termo ser adotado pelo pensamento liberal como paradigma do sucesso individual, o líder soviético I.V. Stálin conversava, em 1936, com Roy Howard, o presidente da associação estadunidense de jornais. Por tratarem de superação de desigualdades e conquista da liberdade, temas conexos ao que aqui se desenvolve, merece transcrição um trecho da entrevista:

É difícil para mim imaginar o que pode ser a ‘liberdade pessoal’ para uma pessoa desempregada, que anda por aí com fome e não encontra qualquer utilidade para o seu trabalho. A verdadeira liberdade só existe onde a exploração foi destruída, onde não há opressão de algumas pessoas sobre outras, onde não há desemprego e pobreza, onde não se teme perder o emprego, a casa e o pão. Só numa tal sociedade é possível uma verdadeira liberdade.

Até lá, precisa-se de o Estado suprir as carências que nos fazem desiguais.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

Um comentário em “Duas juízas “condenam” a meritocracia

  1. Boa tarde !
    Mas quando um pobre começa se destacar através de sua inteligência e vontade desperta ciúmes e inveja e o pé muito grande surge que te impede seguir adiante , é impossível , por mais que queiramos .
    A vida é bastante complexa , , cada um tem a sua explicação , mas o local onde nascemos , a cultura , sistema político , jurídico , conta muito .

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