Janusz Korczak: Escritor, Mártir, Pedagogo

25 anos depois

José Aron Sendacz

A Hebraica em Revista nº 6 – junho de 1967

Completará neste mês, um quanto de século do desaparecimento de uma das mais belas, das mais nobres personalidades no campo da educação infantil.

Em 1942 os nazis gaseificaram um dos mais humanísticos batalhadores pelos direitos da criança, matam o grande escritor, pedagogo, psicólogo e professor JANUSZ KORCZAK.

Seu verdadeiro nome era HENRIK GOLDSZIDT. Pediatra de profissão, filho de tradicional família de judeus ricos assimilados, ele preferiu viver no bairro mais pobre da antiga Varsóvia.

Uns o chamavam “médico santo”, outros de “médico louco”. Para as pessoas de seu ambiente, do ambiente do qual ele provinha, era considerado louco.

De que outra maneira podia se encarar neste meio de ganância, de ambições pessoais, de egoísmo, a uma pessoa que era humanista ao extremo, um idealista invulgar? Deque outra maneira podia se encarar uma pessoa que abandonou o lar, o comodismo, a fortuna e a carreira, para viver exclusivamente para a criança, para dar à criança sem reservas, toda sua capacidade, todos os seus conhecimentos, dedicar todas as suas ambições, seu cérebro privilegiado e suas energias?

Para a criança, para a criança judia abandonada, para a criança que vivia na miséria e para todos aqueles que tinham bastante compreensão e sentimento para apreciar e dar valor à obra de JANUSZ KORCZAK, para este, ele era um “médico santo”.

Começou sua vida profissional como pediatra, mas já então não se satisfazia em apenas constatar o diagnóstico, em apenas receitar um medicamento. Procurou ao mesmo tempo, dar à criança um pouco de alegria, um pouco de ternura. Contam que frequentemente após a consulta e o exame da criança, costumava sentar-se ao lado da caminha e contar histórias, brincva com a criança, esquecendo-se de seus outros afazeres.

Talvez seja esta a razão pela qual o denominavam “médico louco”.

Mas cedo chegou à conclusão de que tratar de problemas biológicos e físicos da criança não era sua vocação. A sociedade estava doente, principalmente em relação à criança. Reinava uma incompreensão alarmate entre pais e filhos, entre os educadores e o objeto da educação.

Sentiu que todo o sistema educacional do seu tempo estava errado, estava de cabeça para baixo. Ao invés do educador se aprofundar na alma da criança, estudar sua psicologia, seus sentimentos, suas ambições, seus desejos, procurava-se arrancá-la de seu mundo e torná-la adulta antes do tempo. Ao invés de adaptar a educação à criança, procurava-se adaptar a criança às normasde educação em que os adultos estabeleceram sem levar em consideração, suficientemente, a psicologia infantil.

JANUSZ KORCZAK considerava a infância como uma fase independente da vida humana, que deve ser vivida integralmente, porque possui sua própria beleza e grandeza. E por conseguinte esta fase da vida humana exige muita compreensão, um tratamento muito mais sério do que o estabelecido pelos educadores e pais da geração.

Procurou explicar suas teorias educacionais através de uma série de contos e novelas psicológicas, bem como através de estudos e ensaios publicados em vários volumes.

Não eram histórias para crianças. Eram histórias de crianças para adultos, para que os adultos compreendessem melhor a psicologia infantil, para que os adultos conhecessem melhor o multicolorido mundo infantil, para que os adultos suspendessem a pressão perniciosa sobre o livre desenvolvimento da personalidade infantil.

Criou todo um esquema de teorias educacionais. Teorias que revolucionaram o então praticado sistema educacional.

Nem todas as teorias por ele apresentadas podiam ser aplicadas. Umas não eram suficientemente práticas, outras foram superadas posteriormente. Mas KORCZAK mesmo não as considerava como definitivas.

“Hoje – dizia ele – sabemos mais do que ontem. Amanhã saberemos mais do que hoje.”

JANUSZ KORCZAK não foi apenas um homem de teorias. Ele mesmo as punha em prática.

Fundou em Varsóvia um modelar Instituto de Educação, na Rua Korchmalna, 92, no bairro mais pobre da antiga capital da Polônia, e lá abrigou crianças abandonadas, crianças sem pais ou de pais separados e como num laboratório, realizou suas experiências educacionais.

Este Instituto foi fundado por KORCZAK em 1912 e a ele dedicou o resto de sua existência, até 1942, quando juntamente como todos os seus educandos, foi enviado pelos nazistas aos fornos crematórios de Maidanek.

A este Instituto de Educação dedicou os últimos trinta anos de sua vida. Seus dias, suas noites, suas ambições, seus sonhos, seus conhecimentos, sua fortuna, seus honorários como escritor e professor universitário, seu espírito criativo, seus sentimentos, tudo, tudo o que possuía, deu ao Instituto de Educação da Korchmalna, 92, que era ao mesmo tempo uma República das Crianças e um laboratório onde se observava, onde se pesquisava, onde se estudava e se faziam experiências para conhecer melhor e ajudar ao belo e colorido, mas ainda em grande parte misterioso, mundo infantil.

Graças à obra, à ternura e dedicação de JANUSZ KORCZAK, centenas e centenas de crianças de rua, crianças sem pais ou de pais que viviam na mais extrema miséria, se tornaram homens honrados e trabalhadores.

Milhares e milhares de crianças obtiveram sob sua orientação, uma educação sadia e eficiente.

Quando no ano de 1942 os nazis resolveram acabar com a infância judia no Gueto de Varsóvia, viu-se pelas ruas da capital da Polônia, um longo cortejo de crianças que se dirigiam ao “Umshlagplatz”, de onde seriam enviadas às câmaras de gás de Maldanek. Entre elas marchavam as crianças do Instituto de Educação de JANUSZ KORACZAK. KORCZAK marchava à frente. Trazia uma criança doente nos braços e pela mão outra criança. De cabeça erguida, como se fosse a um passeio, KORCZAK dirigia o cortejo.

Quando no último instante um oficial da gestapo trouxe uma ordem para libertá-lo, KORCZAK cuspiu-lhe na cara e foi o primeiro a entrar no vagão que os levou a todos aos fornos crematórios.

Este detalhe, este quadro maravilhoso e horrendo do fim de uma das mais belas figuras de uma geração, não passa de um detalhe, um pequeno detalhe na vida de JANUSZ KORCZAK.

Porque não foi através de sua morte martiriológica, mas sim através de sua heroica vida, de seu maravilhoso trabalho, que KORCZAK consagrou a grandeza do homem.

Conheça a conferência na íntegra. Leitura complementar: Nunca diga que esta é a sua última caminhada.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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