Nunca diga que esta é a sua última caminhada

69º Aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia

A presença dos judeus na Polônia é tão antiga quanto a própria existência daquele Estado europeu, estabelecido em 966 com a conversão ao catolicismo e assunção como monarca do nobre Miesko I, que deu origem à dinastia dos Piast. Acredita-se que os primeiros habitantes de origem judaica da terra de nossos ancestrais migraram desde o oeste europeu, fugidos da intolerância que reinava nas monarquias absolutistas ocidentais. A origem da maioria dos poloneses, no entanto, é eslava.
Sua posição central no mapa do velho continente deu-lhe privilégios no comércio, mas também atraiu a cobiça de outrem desde há muitos séculos. Potências estrangeiras invadiram, dilapidaram e mesmo ocuparam a Polônia em diversas ocasiões, mas nos períodos de independência os poloneses viram o florescer da cultura renascentista e o desenvolvimento do seu país, assim como a melhora da vida de seus habitantes. Foi um dos primeiros países a registrar na Carta Magna a proibição da conversão religiosa à força, pelo que ficou conhecida, ainda na Idade Média, como o “país sem fogueiras”.

Na história moderna, o Estado polaco recompôs-se em 1918, logo após a 1ª guerra mundial, dando fim ao tratado de Viena que o havia partilhado entre a Rússia, Prússia e Áustria um século antes. A frágil democracia da 2ª República, com constantes trocas de primeiros ministros e até golpes militares, perdurou até a invasão alemã, em 1939, considerada o marco inicial da 2ª guerra mundial.

Toda uma história vivenciada e compartilhada pela população judaica da Polônia, que contava aos milhões na primeira metade do século passado.

Muitos luminares das ciências e das artes merecem destaque nessa história, por sua contribuição à cultura e ao saber e bem-estar universais. Gente como o educador Janusz Korczak, o escritor I L Peretz, o químico Jonas Salk, o músico Artur Rubinstein. Gente como os meus e os seus tataravós.

Mesmo diante do significativo lapso de tempo, a integração, avalio, não foi plena. Muitos autores referem-se até hoje aos poloneses e aos judeus como povos distintos em um mesmo território. Essa situação gerou períodos importantes de instabilidade social interna na Polônia, resultando em conflitos muitas vezes sangrentos. E enfraquecendo o tecido social e a unidade dos poloneses de todas as origens.

A combinação das tensões internas com o avultamento do regime nazista na Alemanha levou muitos judeus a emigrarem, para a América e para a União Soviética, principalmente.

Quando o Reich alemão iniciou sua expansão a leste em busca de matérias primas e trabalho escravo, no final dos anos 30, a Polônia lhes pareceu um objetivo tão estratégico como de fácil alcance. Em poucos dias Varsóvia foi ocupada pelas tropas nazistas. Pouca resistência pôde oferecer, de pronto, o Estado polonês.

A história subsequente é bastante conhecida: da privação da liberdade ao trabalho escravo, do confinamento nos guetos e campos de concentração à morte pelo abandono à fome e à doença, e daí ao extermínio massivo nas câmaras de gás.

O que parecia uma força invencível ocupava terras e Estados inteiros, mas não ocupava a consciência da imensa maioria da humanidade. Acuados de início pela bestial agressividade dos nazistas, os povos dos países ocupados e invadidos aos poucos ofereciam-lhes primeiro resistência e depois partiam para cima do inimigo. Eles venceram. Nós vencemos.

Nesse dia 19 de abril rendemos a justa homenagem aos combatentes do Gueto de Varsóvia. Um grupo de jovens, com poucas armas letais, mas com uma consciência e uma sede de justiça que dois anos mais tarde faria tremular a bandeira vermelha sobre o Reichstag, decidiram dar um basta à ocupação nazista na Polônia, especialmente na sua capital Varsóvia.

Bem ao estilo tremendão: Pode vir quente que eu estou fervendo.

A conflagração durou 20 dias, até que Anilewicz e centenas de combatentes tombaram de armas na mão. Mas deixaram um exemplo que estimulou a luta dos combatentes de todo o mundo e animou o espírito humano em quem ainda o tivesse adormecido.

9 de maio de 1943, o gueto era uma terra ainda mais arrasada do que antes.

9 de maio de 1945, os aliados puseram fim à barbárie nazista.

Quis a história que o Levante deflagrasse na antevéspera do nosso Dia de Tiradentes, quando os brasileiros celebram o primeiro herói da sua própria independência. Coincidência ou não, o Brasil, beligerante ao Eixo desde 1942, constituiu a primeira unidade das Forças Expedicionárias Brasileiras exatos 3 meses após a queda dos combatentes do gueto. No ano seguinte, 25.334 pracinhas brasileiros, entre eles o jovem pintor gaucho Carlos Scliar, foram à Itália contribuir com a vitória final dos aliados, honrando a nossa Nação e a memória dos combatentes de Varsóvia.

Uma batalha gigante foi vencida, mas a guerra ainda não terminou. A cobiça pelas riquezas que brotam do solo e a submissão de povos inteiros ainda têm lugar no mundo de hoje. Os assaltos armados às Nações ocupam regularmente os noticiosos globais. O nosso Brasil, rico e desenvolvido, não está imune aos ataques das forças imperialistas atuais.

Como dantes, as nossas armas são a consciência, a solidariedade e a disposição de luta. Principalmente para prevenir. Mas também para enfrentar, se o tempo nublar novamente.

Desde 1946, o Brasil conta com esse Instituto Cultural Israelita Brasileiro e, desde 1953, com esta Casa do Povo, para ajudar nessa tarefa. Criado em homenagem às milhões de vítimas dos agressores nazistas, sob o lema “Fascismo nunca mais”, tornou-se um templo da cultura e dos valores progressistas judaicos, oferecendo-os ao povo brasileiro como contribuição à continua formação da identidade pacífica e multicultural do nosso país.

Do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem ao teatro TAIB, do coro Shaefer e o teatro profissional idishe ao coral Tradição, o ICIB é uma vela que nunca se apaga. Com a certeza na frente e a história na mão, seguimos caminhando e cantando. Pela paz e independência de todas Nações do mundo, especialmente esse gigante que nos acolheu como filhos, o nosso querido Brasil.

*Discurso proferido em 19 de abril de 2012, por ocasião da comemoração do 69º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia, na sede do Instituto Cultural Israelita Brasileiro – a Casa do Povo.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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