Juros mais altos na recessão – uma introdução

Caixa Forte do Silvio Santos

Yuval Harari, o famoso historiador, está correto quando afirma que o dinheiro – o seu valor, não as cédulas e moedas que o representam – é fruto da imaginação humana.

Nos tempos modernos, institui-se o ouro como equivalente universal das mercadorias, aqueles itens que os produtores queriam trocar entre si. Imaginem um costureiro produzindo máscaras cirúrgicas. Quantas máscaras ele precisaria entregar ao um leiteiro para obter os vinte litros de leite que consome por mês? E este, quantos litros de leite ele deverá dispor para o técnico de refrigeração que veio consertar a sua geladeira? Todos eles precisam também do transportador de suas mercadorias e, assim, a confusão aumenta muito quanto maior o número de produtores e a diversidade de mercadorias, daí nominar tudo em ouro.

Bem, o ouro existe na natureza e muita gente correu para o oeste para se apossar diretamente dele, e assim o dinheiro começou a virar mercadoria, perdendo gradativamente o seu papel original.

Sobre as cédulas e moedas, e mais modernamente os meros registros bancários, passaram a ter valor nas trocas por imposição estatal. Só que, de uns tempos para cá, o próprio dinheiro virou mercadoria.

Comprar dez reais por nove para vender por onze? É exatamente isso que se faz nos dias de hoje, especialmente nos mercados futuros de juros, moedas ou qualquer papel representativo da riqueza real.

A tristemente famosa pirâmide financeira, que sobrevive em golpes perpetrados nas redes tecnológicas de hoje, virou coisa de ladrão de galinhas quando comparada com a sofisticação do mercado de compra e venda de dinheiro.

Imaginem que um banqueiro bem relacionado, especialmente junto àqueles que fazem as leis e regras limitadoras do pecado da ganância, prometa entregar cem dólares dos EUA daqui a noventa dias, pela módica quantia de trezentos reais. Assim, um viajante ao exterior que reprogramou suas férias na Disney para depois do isolamento social ficará tranquilo que poderá comprar a moeda do local de seu destino com o adicional que a CLT determina ao seu patrão pagar no seu descanso anual.

O que faz o retinto senhor promitente? Procura por outra pessoa que tenha prometido uma festa de aniversário para a filha e precisará se desfazer de cem dólares em noventa dias para honrar as despesas em reais. A ele, o banqueiro oferece duzentos e noventa reais, fora as taxas da transação, suficientes para a empreitada e tranquilizadora ante uma valorização brusca da moeda nacional no período.

Pronto. O intermediário acabou de comprar trezentos reais por duzentos e noventa. Sem colocar qualquer tostão na jogada. E, já que trabalhou muito para conquistar sua posição na sociedade – no Brasil precisa da autorização do Banco Central para operar legalmente no “setor” econômico de produção de dinheiro -, o sujeito ainda cobra uma pequena taxa de serviços de ambas as partes envolvidas.

Até aqui procuramos estabelecer o dinheiro ele próprio como mercadoria. Vamos tratar do seu preço – os juros – no próximo artigo.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

4 comentários em “Juros mais altos na recessão – uma introdução

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