Empatia viral

Traduzimos do espanhol o poema de Edna Rueda Abrahams, pela sinceridade que nos passam os seus sonhos de que a Humanidade será uma só. A fé no que virá nos anima na luta de hoje, contra o vírus e as injustiças sociais. Como se diz aqui no Brasil, do limão uma limonada.

A versão que recebemos está datada de 14.3.2020 e veio desde a Argentina.

“Eis que um dia o mundo amanheceu com a nefasta promessa de um apocalipse viral e imediatamente fronteiras defendidas com guerras romperam-se com gotas de saliva, houve igualdade no contágio que atingia igualmente ricos e pobres, as potências que se sentiam infalíveis viram como se ruir ante um beijo, ante um abraço.

E nos demos conta do que era e do que não era importante, uma enfermeira tornou-se mais importante que um jogador de futebol e um hospital se fez mais urgente que um míssil. Apagaram-se as luzes dos estádios, pararam os concertos, a exibição de filmes, as missas e os encontros massivos e sobrou ao mundo um tempo para a reflexão de cada um, para esperar em casa a chegada de todos e se reunirem em torno da lareira ou da mesa para contar contos que estiveram a ponto de ser esquecidos.

Três gotinhas de coriza no ar nos colocaram para cuidar dos idosos, valorizar a ciência mais que a economia, ensinaram que não só os indigentes trazem pestes, que a nossa pirâmide estava invertida, que a vida sempre foi o mais importante e as outras coisas eram acessórias.

Não há lugar seguro, na mente de todos todos cabem e começamos a desejar o bem ao vizinho, necessitamos que esteja seguro, necessitamos que não adoeça, que viva muito, que seja feliz e, ao lado de uma paranoia fervida em desinfetante, nos damos conta de que se eu tenho água e o outro não, minha vida está em risco.

Voltamos a ser a aldeia, a solidariedade se veste de medo ao risco de nos perdermos no isolamento, há uma só alternativa: sermos melhores juntos.

Se tudo der certo, tudo mudará para sempre. Cumprimentamos com os olhos, reservamos o beijo a quem já tenha o nosso coração. Quando os mapas se pintem de vermelho pela presença do corona as fronteiras já não serão necessárias e o trânsito de quem venha nos dar esperanças será bem recebido em qualquer idioma e sob qualquer cor de pele. Deixará de ser importante a incompreensão dos modos diferentes de vida, a diferença de fé, bastará estender a mão quando ninguém mais quiser fazê-lo.

Pode ser só uma possibilidade, que este vírus nos torne mais humano e de um dilúvio atroz surja um novo pacto, com um ramo de oliva para começar de novo.”

Começar de novo, talvez, mas com a consciência do que foi e a certeza de um novo amanhã humano, sem os vícios do egoísmo.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

2 comentários em “Empatia viral

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